| cartas

As cartas atravessam grandes distancias levando consigo as marcas, dobraduras, tensões e a caligrafia do autor, as verdadeiras digitais dos seus escritores e também dizem muito sobre a disponibilidade e o interesse de se corresponder com maior ou menor intimidade.

Ando me perguntando sobre a importância delas para continuar o meu trabalho, faz tempo que me pergunto; quem em mim escreve e para quem escrevo? Apenas sei que escrevo cartas como um desejo de diálogo sobre a vida que temos todos os dias e como posso tornar pública minha produção profissional.

Me faço esta pergunta como quem busca um estilo, um modo ou linguagem para seguir evoluindo meu trabalho, desenvolver minhas relações próximas e as distantes e tudo o que me compõe como forma, conteúdo e ações sobre mim e para fora de mim.

Quero compartilhar olhares e escrever sobre ser um corpo, ser anatomia viva em permanente ato de criação e adaptação nos ambientes, ler mensagens, poesias e descrições sobre a vida das pessoas contada por elas e somente por elas encontrar modos de narrar o que se viveu e as trajetórias singulares.

Encontrei nas cartas uma oportunidade para quem as escreve; de apanhar afetos por meio das palavras escritas, aproximando, juntando e desviando delas para registrar sequências e desenvolvimentos de si próprio e modos de organizar vida diária e fazer encontros com pessoas, coisas e lugares.

Escrever não ocupa pouco tempo de relógio, ocupa uma vida inteira de investigações sobre o corpo das palavras e nosso encontro com elas, basta usarmos mais de uma vez uma mesma palavra para entendermos que elas não permanecem dizendo sempre as mesmas coisas.

Encontrei uma parceria com as palavras, mesmo não me entendendo como um escritor, curiosamente me sinto um fazedor de frases, tal como me entendo um bom realizador de feituras concretas; marcenarias, plantios, arrumações e desorganizações de ambientes, gosto de pintar paredes, cozinhar, limpar e sujar o chão.

Colocar a mão na massa é uma necessidade minha, tenho muita vontade de realizações concretas para ilustrar como me sinto, como penso e existo. Vivo neste território das investigações, montagens, desmontagens, pesquisas, hipóteses, descrições mais ou menos apaixonadas pela vida, pelos dramas, coreografias dos corpos me contando, escrevendo e improvisando modos de viver.

Diariamente manejo em mim forças de diferentes ordens diante o trabalho de psicólogo, e agora sinto vontade de escrever para continuar fazendo com as mãos as artesanias sobre tudo o que nos acontece quando queremos uma existência que funciona a favor da vida.

Escrever as cartas mesmo que neste formato “blog” me desafia desta maneira, libertar excitação de viver com as mãos livres para criar, pegar, investigar e até de futucar curiosamente o que diante de me mim causa inquietação, atração e canaliza desejo de conexão. Recentemente me atribuíram o adjetivo feitor, senti como um elogio, porque gosto desta imagem de quem faz algo com toda a atenção voltada para o FAZER e não para o feito e acabado.

Um feitor no meu imaginário é tomado por processos físicos e temporais envolvidos numa produção, tem poder de esquecer o objetivo e se encantar com os métodos, com a capacidade interminável de criar materialidades com o corpo. Para alimentar meu interesse por continuar fazendo, escrevendo e aprendendo fazer diferença e singularidade, me lanço definitivamente no território das cartas escritas e posto aqui neste Blog.