Lavar as mãos e a roupa suja!

QUEM LAVA AS MÃOS ? E COMO ?

Nossos comportamentos são cultivados com dedicação diária, com muita atenção, e quando atribuímos sentidos a eles, exatamente como o cultivo de uma horta, primeiro estabelecemos uma relação de vital importância; passamos a nos alimentar dela e dedicamos cada vez mais tempo para aprimora-la, nossas mãos assimilam habilidades  junto com calos e ritmos próprios de fazer, movimentos corporais coreografando músculos, ideias e outras vidas. E quando os comportamentos de alerta e desconfiança ganham maior importância, como nos grandes centros urbanos em que a vida está sob ameaça boa parte do tempo, cultivamos comportamentos de ataque e defesa, repulsa e hostilidade.

Construímos coreografias – movimentação corporal – repetindo ações simples – o tira e põe casaco, o tira e põe sapatos, o tira e põe máscaras (em todos os sentidos), o lava e suja louças, o lava e estende roupas, um imenso faz e desfaz coisas cotidianas que vão desenhando no CORPO um modo de estar nos ambientes -anatomias de adaptação –  o MODO COMO as pessoas estão vivendo. São olhos arregalados de medo, peitos encolhidos de sofrimento, cabeças erguidas de otimismo, pisadas firmes de confiança ou “pisar em ovos” pra não serem percebidas, uma infinidade de comportamentos de composição e adaptação, porque somos assim, CORPOS com uma capacidade interminável de modelar a si próprios para se adaptar as demandas de convivência social.

Sobre esta modelagem farei um outro post.

Agora é importante voltar atenção para a louça !

A louça que está na mesa chegará até a pia porque alguém se ocupará de fazer o deslocamento destes objetos. Pode ser de uma maneira arrastada com todo peso da obrigação, ou com a velocidade necessária para se livrar logo desta atividade, ou com gestos curtos e com “mão quebrada“, ou  com a elegância de quem monta uma instalação artística, ou com a destreza do equilibrista que se diverte entre os equilíbrios improváveis, ou com nenhum cuidado pessoal porque em algum momento alguém chegará para nos salvar da louça.

Se até aqui eu tenha conseguido atrair sua atenção para o COMO cuidamos da louça ou de qualquer outra atividade simples do cotidiano, todas elas mais importantes que a própria louça, é porque ficou clara a ideia de que dançamos em torno dos objetos, mobílias, paredes, obstáculos e pessoas a nossa volta; de que estabelecemos coreografias adaptativas e assim modelamos os CORPOS, mais ou menos alegres, mais ou menos presentes, mais ou menos contrariados e vítimas dos esforços domésticos.

QUEM LAVA A ROUPA SUJA ?

Lavar a roupa suja é uma expressão bem comum entre nós brasileiros quando nos referimos aos diálogos com atrito dentro de nossas casas e nas relações pessoais com alguma convivência e intimidade. E para que serve ? E para quem Serve ?

Serve para limpar o que ficou sujo pelo uso, porque sujar as roupas é inevitável para nós “humanos sapiens“. Elas são utilidades e também são adereços para as nossas coreografias. Usamos e trocamos de roupas COMO preparação para cada próxima atividade, lava-las pode ser justamente a relação de preparo, ou mais uma vez, um acúmulo de tarefas sem sentido algum, apenas obrigatórias, enfadonhas e desnecessárias.

Porém não conseguimos levar a vida pelados, será necessário vestir, usar e prepara-las para usar novamente, escolhendo COMO queremos fazer esta operação que se repete todos os dias, realiza-la tal como fazem os samurais que ritualizam o ato de vestir sempre como se fosse a última vez, ou tal como faz o cirurgião antes de operar, de maneira asséptica e disciplinada, ou como o mergulhador com roupas seguras e desconfortáveis, ou como a bailarina com poucos panos leves, ou ostentando excessos de símbolos e marcas carregadas de status.

Espero ter conquistado sua atenção para a importância do COMO “lavar a roupa suja“, vestir-se de sentidos pessoais, de cuidados com a presença nos encontros, de preparar-se para a natureza dos ambientes, com seus climas, relevos e culturas. Lavar não apenas para se livrar do sujo, indesejado ou contagioso, mas recuperar o gosto pelo cuidado,  pelo capricho, pelo enfeitar-se e sem tanta repulsa de sujar as mãos com a vida que se tem e com a própria sujeira.

Sendo inevitável a “lavação de roupa suja” por ser desejável recomeçar sem a sujeira do dia anterior, temos que reservar tempo para isso e não atribuir para outras pessoas o cuidado que se refere a nossa própria organização. Ressignificar como privilégio, dedicar tempo trabalhando sobre os objetos marcados por nossa vivência. Investigar em nossos próprios hábitos os modos como estamos vivendo, produzindo e queimando energia, o quanto consumimos, acumulamos e criamos objetos e subjetividades na vida cotidiana.

ENTRE AS QUATRO PAREDES

E não são apenas os hábitos cotidianos que modelam nossos CORPOS, e não apenas as práticas e disciplinas organizam nossos COMPORTAMENTOS. Existem diálogos entre as quatro paredes envolvendo no mínimo duas pessoas em uma conversa – e novamente afirmo o que já escrevi anteriormente – como humanos sapiens precisamos contar para outras pessoas “O QUE” e “COMO” estamos vivendo.

É assim que nos desenvolvemos desde criança, usamos da presença das outras pessoas para testar nossos comportamentos, aferir a eficiência deles, o alcance das nossas habilidades, o que provocamos, o que já sabemos e o que ainda precisa de mais ensaios: qual o tom de voz usamos, a qualidade dos gestos, qual coreografia intensifica nossas emoções ou as enfraquece. Nos aperfeiçoamos nos encontros, lavar a roupa suja em casa é privilégio de ensaiar coreografias acompanhados, aumentar nossas habilidades de conviver e colaborar com os ambientes.

O diálogo na intimidade da casa e sobre as coisas simples da vida cotidiana, por exemplo, quem lava louça hoje ou quem acompanha a lição de casa das crianças são ricas oportunidades para entender o que fazemos e como fazemos os acordos de convivência, como exercitamos poder e vulnerabilidade, como praticamos o direito ao contraditório, como favorecemos a liberdade de expressão e como encontramos saídas coletivas para problemas comuns. Temas atuais da vida em sociedade, que tem neste lugar íntimo e privado a construção dos primeiros sentidos, dos primeiros vínculos e valores que sustentam um modo de estar na vida.

Repetidas vezes neste post chamei sua atenção para os MODOS, para os COMOS fazemos desde as coisas simples até as tarefas de maior complexidade. Chamei atenção para a importância de se ver fazendo e atribuindo sentidos aos próprios comportamentos. Acredito que conhecemos melhor a natureza dos nossos comportamentos observando suas funções no processo de desenvolvimento, aumentando complexidades e capacidade de conexão.

Chamei sua atenção para aquilo que nos torna fluentes e habilidosos no manejo da vida cotidiana; olhar para os COMO’s e fazer com as próprias mãos.

“um jornalista interessado na vida das pessoas”

O trabalho com Henrique Castro teve início em Agosto de 2016 e desde então me chama atenção a importância que ele atribui a história da vida das pessoas contada por elas e  como ele fez disso um dispositivo jornalístico em seu método de pesquisa para descrever acontecimentos históricos. Me interessou profundamente o modo como um jornalista pode dedicar seu trabalho de escuta de diferentes histórias pessoas sem interpreta-las ou afirmando suas próprias conclusões ou verdades.

Desta maneira Henrique compõem um escrita por composição de diferentes personagens, com narrativas carregadas de experiências pessoais, que são afetivas e também são geopolíticas. Sem tirar nem por nada que altere o percurso de quem narra a própria história alcançamos como leitores de seu texto as informações, os fatos, os acontecimentos e perspectivas com certo gosto de literatura, ao ler nos envolvemos com personagens que nos oferecem registros profundos de quem viveu e pode contar com todas as marcas do vivido, afirmando a realidade dos corpos como fruto de seu tempo, de seus ambientes e de suas singularidades.

A partir da parceria profissional com Henrique encontrei um modo de escrever minhas próprias pesquisas, entrevistas, processos formativos e fragmentos do trabalho clínico enquanto psicólogo e terapeuta, me favoreceu escrever de maneira similar algumas das tantas histórias que escuto diariamente e que não só dizem respeito ao indivíduo mas também sobre as redes afetivas, são as marcas profundas de um tempo, um lugar, uma rede de relações, afetos e significados sobre a vida das pessoas, mostrando modos de construir pontes, alianças e estilos de viver, criar e amadurecer comportamentos.

Este é um blog escrito de maneira similar ao trabalho de Henrique, que evita julgar, sobrepor ideais, afirmar lugares de poder e saber favorecendo a conexão entre histórias individuais pra dizer como formamos CORPO, PENSAMENTO e AÇÃO, privilegiando narrativas pessoais.

A ENTREVISTA COM HENRIQUE

Glauco: Que tipo de jornalismo te interessa fazer?

Henrique: Apesar de reconhecer a óbvia importância e necessidade, nunca gostei muito de fazer jornalismo hard news – o chamado em tempo real -, que trata de pautas importantes para o agora. São as notícias relevantes do dia, mas que não necessariamente vão continuar sendo semana que vem. O que me atrai são pautas não datadas, atemporais, que não perdem sua relevância ao longo do tempo. Essa preferência veio desde cedo, inclusive no que eu consumia. Exemplos: revistas científicas e reportagens que trazem detalhes das vidas dos personagens. Eu gosto muito da ideia do jornalismo como ferramenta para contar histórias e a atração por sua forma literária veio da minha percepção de que reportar algo não é apenas o ato de informar, mas também o de entreter, dar voz, inspirar, denunciar, contextualizar e, para isso, acho que se deve fugir de fórmulas engessadas. Nisso inclusive, além do estilo, o próprio tamanho do texto faz diferença: são reportagens longas, para se saborear.

Glauco: Qual é esse gosto pela leitura no jornalismo literário que não há no hard news? Existe uma possibilidade de usar do discurso da vida das pessoas para entender qualquer coisa? Ao contar a história de um personagem eu posso estar contando uma história que é geopolítica, épica, que é atravessada por diferentes histórias de mais pessoas? O jornalismo literário tem essa possibilidade de alcance?

Henrique: Acredito que sim. Existem várias maneiras de mostrar uma realidade complexa como o jornalismo de dados, onde se destrincham números e estatísticas a fim de se tirar uma conclusão sobre algum tema. Inclusive admiro muito essa forma de se fazer jornalismo. Dela surgem insights que dificilmente seriam obtidos de outra maneira. O que me atraí no jornalismo literário entretanto, é a humanização que ele traz. É outra experiência ouvir o dia a dia de uma personagem, suas considerações sobre algo, vontades, experiências, opiniões, medos. Eu tendo a acreditar que alguém tem maior probabilidade de se sentir tocado por uma história quando conhece o rosto por trás dela. É só ver como são normalizadas notícias de tragédias no jornalismo hard news. Elas, muitas vezes, falham em nos conscientizar e nos emocionar, são tratadas com distância pelo leitor: “é uma pena, mas a vida segue”. Um exemplo: quando um âncora fala no rádio que um grupo de refugiados, tentando entrar na Europa, foi interceptado pelas autoridades e enviado de volta. Se você não tem uma familiaridade e vivência com o assunto, é provável que depois do almoço você nem se lembre mais disso. Agora, ao ler uma reportagem extensa que conte as peculiaridades do grupo, suas dificuldades, seus motivos, seus nomes, seus rostos e sonhos ao invés de números sem vida, é infinitamente mais provável que o leitor se comova e queira conhecer mais sobre a situação e quem sabe agir de alguma forma para fazer a diferença. Essa importância aumenta em tempos nos quais a maioria do que consumimos vem em pílulas de brevidade, que a informação precisa ser rápida e fácil, com a desculpa que não temos tempo a perder. Eu enxergo isso se desenvolvendo como um hábito nas pessoas: consumir o máximo de coisas no menor tempo possível, o que acaba sendo prejudicial para a construção de um senso crítico e uma conexão com o que se lê. As pessoas leem tragédias no café da manhã, comem seu pão na chapa e vão viver seus dias sem nem ao menos se abalar. O jornalismo literário nesse aspecto é uma bela ferramenta para resgatar a empatia das pessoas e não necessariamente apenas com notícias ruins, mas também com histórias inspiradoras, por exemplo. Além disso esse tipo de fazer jornalismo tem um enorme poder de contextualização. A partir daí pode-se revelar realidades e fatos que transcendem o caso em si, sendo, portanto, geopolíticas, históricas, épicas…

Glauco: Quando se fala literário a gente pode não apenas descrever os fatos, mas colocar um pouco de ficção?

Henrique: Por princípios éticos, não. O desafio do “tornar literário” é você passar suas impressões, seus pontos de vista, seus destaques, sem distorcer os fatos. Eu sempre vejo como se você fosse contar uma história, só que no caso ela é não fictícia. Ela inclusive pode ser comum muitas vezes, e daí o papel do autor é torná-la envolvente, mostrar sua relevância, contextualizá-la. Isso pode ser feito com qualquer situação, o desafio é criar uma narrativa que mostre sua importância para a sociedade como um todo. E isso é possível com qualquer fato, desde que se seja criativo e construa uma narrativa atraente e envolvente.

Glauco: Algumas sugestões de leitura de jornalismo literário?

Henrique: Os Sertões do Euclides da Cunha, é um exemplo atual, já que ele foi o homenageado da FLIP desse ano. Mas existem muitos bons autores: Janet Malcolm, João do Rio, Fernando Morais, Gay Talese, Roberto Saviano, Svetlana Alexijevich… Pessoalmente, meu trabalho favorito de jornalismo literário é A Sangue Frio, do Truman Capote – que é inclusive um grande clássico desse tipo de escrita.

Glauco: Na medida que você tem essa sensibilidade, o que você carrega daí para o seu trabalho como estudante de geografia e pesquisador. Em que lugar você leva esse gosto pelo jornalismo?

Henrique: A geografia tem toda uma parte que estuda o mundo natural e físico que é extremamente importante, mas essencialmente é uma ciência humana. A geografia estuda as conexões entre homem e Terra. Acredito que tudo o que envolve ser humano passa um pouco pela nossa subjetividade, portanto para entender geografia não basta saber dados brutos, mas também entender como esse mundo natural interfere e molda nossa sociedade. E aí que eu acho que tem uma relação, no sentido de trazer toda essa informação para uma leitura humanizadora. E para se fazer pesquisa em ciências humanas existe uma ferramenta que dialoga muito com o jornalismo: a história oral. Quando você estuda uma comunidade que não tem documentação de sua história, onde os conhecimentos são passados de geração em geração, a partir de ensinamentos, você precisa parar e conversar com as pessoas. Os indivíduos são fontes históricas vivas.

A conta não fecha

QUANTO É O MÍNIMO

Atualmente, em diferentes países estudam-se formas de implantação de uma renda mínima individual, se tornou insustentável a desigualdade social nesta engrenagem agressiva e segregacionista que chamamos de capitalismo neoliberal, porém o mínimo em dinheiro não reflete ou não deveria refletir o desejo de abundância que todos continuaremos a ter. Que bom que seja assim, pois “não queremos só comida, também queremos diversão e arte” como bem disse a banda, Titãs no final da década de oitenta em terras brasileiras.

É necessário um debate qualificado sobre os critérios e a construção da renda mínima, que ofereça condições de acesso e consumo. E que sejam feitas perguntas o mais breve possível antes que as narrativas tendenciosas sobre o tema tomem toda nossa atenção. 

Neste “blog” cabem as provocações de alguns temas, cabe acolher mobilizações individuais, sensibilizar o leitor sobre a dimensão do nosso tamanho e dos nossos comportamentos em diferentes territórios.

Compreendo que o mínimo é garantir a liberdade criativa e a eficiência dos comportamentos de conexão com a vida.

Então – COMO DE COSTUME – vamos em busca de exemplos que ilustrem nossas conversas por aqui, ao perguntarmos para uma criança como ela quer viver, possivelmente teríamos uma resposta simples: quero viver bem, ou quero viver com ALEGRIA, ou quero viver brincando! Um exemplo simples de que o mínimo é viver em um estado de bem-estar, ocupado daquilo que nos alegra e, bem sabemos, uma criança brincando está integralmente envolvida com seu corpo, seus desafios e aprendizagens, não há preguiça, não há sedentarismo.

Por se tratar de uma criança, respondendo a uma pergunta de maneira tão eficiente e com domínio lógico sobre aquilo que a fortalece, nos faz sorrir e por alguns instantes acessarmos esse estado de ALEGRIA, porque temos a memória de viver desta maneira, já fomos crianças e sabemos “COMO É” e o quanto fomos convencidos do contrário em algum grau, se não estivermos totalmente ressentidos.

Vamos usar este exemplo sempre que tentarmos entender O QUE É e,COMO É, o estado de produção e investigação sobre quem somos, a natureza dos nossos comportamentos e quais escolhas nos fortalecem.

Sabemos o quanto somos capazes de se envolver em algumas atividades de maneira tão interessada quanto as crianças e o quanto é grande nossa vontade de se alegrar,porque somos ávidos por trabalhar e criar saídas para problemas comuns da vida cotidiana e, somos ainda mais ávidos por práticas eficientes e não apenas utilitárias.

Outro bom exemplo para ilustrar a abundância de nossos desejos e a eficiência natural de um CORPO ALEGRE é a prática da DANÇA, uma arte que nos torna habilidosos consigo, com os próprios recursos de criar graça e coreografar comportamentos e retirar-se do enfado das atividades rotineiras. Quanto mais dançamos ampliamos competências de nossa natureza humana, a de se alegrar, pensar, criar e produzir em abundância, diferentes expressões corporais, fazer graça e traquinagens com os gestos e os movimentos físicos. Somos exuberantes, não paramos de produzir diversidade e contraditórios.

QUANTO É ABUNDANTE?

Abundante é uma quantidade muito superior ao mínimo e que não faz desperdício porque tudo se aproveita, e diferentemente da lógica capitalista que precisa gerar a falta,criar objetos e demandas de consumo, vender o produto final, oferecer coisas mastigadas para manter corpos sedentários de produção e distantes do que podem, aqui a conversa é sobre abundância mesmo, aquilo que não acaba.

Comparo estados de abundância com o estado da criança brincando que se alegra com suas próprias perguntas e seu imaginário, comparo também a abundância com o corpo dançando que se entende pensando e criando como ações complementares de infinitas possibilidades.

Também compreendo abundância, como a sabedoria dos permacultores que entendem que após semear, plantar, crescer, colher e comer, precisam se ocupar do reaproveitamento das sobras, trocar com a vizinhança sua produção, suas aprendizagens e histórias sobre o que viveram durante o cultivo.

Faço essas duas ilustrações, a da criança brincando e da pessoa dançando, porque me interessa – como sempre, em todos os “posts” neste “blog” – provocar atenção para os modos – COMO FAZEMOS TUDO E QUALQUER COISA – porque assim podemos entender a natureza dos nossos comportamentos, a permanente transformação e COMO agregar valores, significados e inteligências colaborativas em nossas redes.

Colaborar é uma inteligência! 

Há um dado importante para esta afirmação: durante 2,5 milhões de anos, os humanos se alimentavam coletando plantas e caçavam animais que viviam e procriavam sem qualquer intervenção humana, uma estratégia coletiva de se deslocar em grupo, investigar e multiplicar conhecimento e esforços corporais sem nenhuma chance para o sedentarismo. 

E pelo longo período que este modo de vida esteve neste planeta nos permite supor a eficiência destes comportamentos, supor um alto grau de motivação necessária de permanecer em movimentação e não acumular nada, fazer reservas só daquilo que se consegue carregar, não tratar em cativeiro particular os animais, pessoas e objetos,fechando e abrindo ciclos conectados com estações climáticas na aventura de estarem vivos. 

É preciso tempo em abundância para entender os ciclos da natureza e mais tempo ainda para nos educarmos sobre a finitude das coisas, o que é indispensável aos recomeços, “ter que morrer pra germinar” como bem cantou Gilberto Gil no começo da década de oitenta, também em terras brasileiras. 

Acelerar o tempo como propõe alguns, dizendo que tempo é dinheiro, é perder-se da potência que há em cada uma das vivências e para melhor aproveita-las é preciso desacelerar, são muitos os tempos necessários para criar vida neste planeta e nem todos conseguiremos medir, também não há como medir o tamanho da vida das pessoas, talvez a ALEGRIA possa ser uma boa sugestão. 

Sua conta fecha? Te sobra tempo? Você já dançou hoje?

À FLOR DA PELE

 Fragmentos de correspondências entre eu Glauco e Nide, pedagoga e plantadora de orgânicos, que aceitou escrever e publicar um recorte de nossas conversas e investigações sobre os ESTADOS SENSÍVEIS VIVIDOS NO CORPO, em especial neste momento diante à situação de isolamento social e pandemia, uma conversa despretensiosa, mas com muita vontade de acolher e entender os estados do corpo que ainda não conseguimos descrever  que portanto temos pouca ou quase nenhum domínio sobre eles. Apenas a certeza que o mundo não voltará a ser o mesmo.

Durante a escrita deste texto, aos poucos percebemos que estados de pouca fluência não são necessariamente estados de fraqueza, mas brechas para aprofundar o que vivemos e sentimos.  Durante o processo entre leituras, rascunhos, mensagens, intervalos e retomadas descobrimos que este seria um texto de diálogos sobre o cansaço, o atropelo cotidiano, o ESTADO À FLOR DA PELE, sobre nossa vontade de encontrar nas palavras as alianças para se viver em grupo e em estado de amizade, ferramentas para compartilhar modos de viver, de expressar COMO estamos vivendo com o objetivo de multiplicar as performances cada vez mais vinculados com a vida e menos submetidos ao mundo corporativo e pobre de sentidos. Fizemos uso de alguns conceitos de maneira que nos permitiu olhar para a natureza dos nossos comportamentos e como vemos todas as coisas vivas neste planeta, estados adaptativos de formação continuada do corpo e de sensibilidades, de nossa enorme capacidade criativa metabólica de processar ambientes e de nossa incansável vontade de composição e colaboração coletiva nos ambientes de pertencimento.

O que é ESTAR A FLOR DA PELE?

Na extremidade do corpo está pele, o nosso maior órgão é uma linha entre ambiente interno e o externo, é matéria viva feita das relações com a temperatura, com texturas, arrepios e porosidades. É o registro vivo dos encontros, é a anatomia do “entre” é uma borda porosa e elástica que desenha singularidades, individualidades e memórias dos acontecimentos”

Glauco:

A flor é o órgão reprodutivo das plantas a função primordial das flores é reproduzir ainda mais vida, se fazendo entre as cores e formas novas composições; com abelhas, pássaros e um enorme número de outros animais, em especial nós humanos.

Acredito que as flores são belos comportamentos de afirmação da vida em sua diversidade de composições, estão entre bichos e plantas criando ambiente de sensibilidades, produzem e multiplicam sensações, cores e excitações, servem reinos de diferentes naturezas porque produzem através de cores e formas exuberantes, sentimentos de diferentes ordens; são atraentes, cheirosas e provocam apetite e muitas vezes escandalizam olhares de pudor.

Minha já falecida avó gostava muito de flores escandalosas, desta que enchem a casa de alegria, cheiro e abelhas, dedicou sua vida à imitar a potência delas, plantando ou confeccionando artesanalmente com tecido engomado. Ainda sinto o gosto e cheiro bom do seu quintal, ainda posso ver seu sorriso atraente e sedutor, casou-se sete ou oito vezes, não me lembro ao certo, mas sei que todas as vezes foi de maneira apaixonada e feliz com um novo encontro. Penso que minha avó viveu como as flores vivem; excitada com os bons encontros, aqueles que se animam com o arrepio que dá na pele.

Creio que estamos neste mesmo momento de composição diante da pandemia e que precisamos de outras formas e sensibilidades para continuarmos vivos, não basta reproduzir, teremos que inventar novas formas e comportamentos e para isso será necessário observar como fazem todas as coisas que se afirmam por sua capacidade de compor, imitar e de se diferenciar. Nosso cansaço é do igual e do impotente diante a vida, são hábitos, estéticas, modos de viver e se relacionar que já cansou toda nossa beleza. 

Entendo ser urgente aprendermos com os CORPOS e COREOGRAFIAS femininas, tal como a das flores, afirmar nossos comportamentos por sua capacidade de conduzir afetos, fazer dobras sobre si, gerar mundos e diálogos mais generosos conosco e com os ambientes. É assim que penso sobre as flores; são como corpos femininos e com capacidade de multiplicar o que realmente afirma a vida nesse planeta.

Paul Valéry um poeta e professor francês afirma que “o mais profundo é a pele” é o que alcança a profundidade de sentidos e em permanente relação com o fora e com outros corpos na mesma condição.

Para mim, estar “a flor da pele” é estar presente nesta linha tênue em que tudo pode acontecer sem o controle racional dos sentidos, é estar próximo do choro, do sorriso e das paixões, é estar no risco de acontecer em função dos sentidos da vida em nosso CORPO, ser passagem e não retensão, ser acontecimento e não projeção idealizada, criação e não crença, estar vivo e vivendo no presente dos acontecimentos.

Estar à flor da pele é uma expressão assertiva pra descrever estados de intensa sensibilidade com as coisas a nossa volta, com o aumento de porosidade nas relações, com o toque, com o que nos esbarra ou com que ela absorve.

Nide:

Entendo a pele como uma película protetora dos nervos,carne, músculo e vestimenta da alma, tem poderosa tecnologias de sensores que ninguém do mundo das invenções tecnológicas ainda conseguiu igualar,esses sensores mantém o sistema em alerta e e em equilíbrio, caso algo errado internamente ocorre,  envia avisos, como por exemplo a febre para sua pele, ou também se externamente houver perigo, exemplo são as sensações térmicas: frio= arrepio,hipotermia e mal-estar, poucas pessoas conseguem dormir “com pé frio”
calor= suor,fadiga hipertemia. Regular= conforto térmico e conseguimos relaxamento corporal. 

 O poeta português Luís Vaz de Camões
em seu Soneto diz “o amor é o fogo que arde sem queimar” esse fogo é uma confusão sistemica que gera um calor inexplicável que arde e enrubesce a pele, nesse caso o calor da paixão é um sentimento à Flor da Pele.

Assim como nossa pele tem muitas camadas,  a flor também é cheia de delicados detalhes em seu processo de transição, até surgir às pétalas para ser admirada e amada a flor alegra os olhares e enternece os corações. Todas essas camadas estão intrinsecamente ligadas,assim como a pele e a flor  nossa vida tem minuciosas camadas que devemos nos atentar nos processos e dinâmicas da vida, pois temos que ser generosos conosco e suavizar ao externar os nossos  sentimentos, quando mostrarmos nossas emoções, nossos medos mais íntimos, nossa raiva mais potente, nossas dores e alegrias, as esperanças, as incertezas,os nossos POR QUES, os nossos QUANDOS e o nossos COMOS.

Vivemos tempos líquidos  e muitas  vivencias intensas no mesmo período. Há ocasiões que  a falta de empatia ou a indiferença com a vida que ofendem e  acirram ânimos e não nos permitem uma aproximação para acertos com cordialidade. Também temos que aprender a lidar com empatia as questões das outras pessoas e esses tempos vividos atualmente, facilitam o estresse com as dúvidas do que será o amanhã? 

Pode ser que esse período seja a “do por quê” das invenções, de significar e resignificar A VIDA,pois  Sentimos na pele diariamente as asperezas e parece que temos que ter muitas camadas de pele ou colar e recolar constantemente para sobreviver as incoerências e incertezas,  porque o mundo estar à flor da pele.
“Somos feitos de carne, Mas temos que viver como se fôssemos de Ferro” Sigmund Freud.

Ficar em casa

FICAR em casa FAZENDO O QUE E COMO ?  o início da conversa de hoje !

Atualmente o trabalho doméstico se mistura cada vez mais com a produção de renda, se torna EMERGENCIAL INVESTIGAR COMO vivemos e quais são nossas necessidades e vontades DO COTIDIANO e tudo que nos organiza  corporalmente.

QUAIS SÃO OS ENCONTROS inevitáveis do dia a dia ?

Somos seres gregários, sujeitos vivos que se associam com outros para viver, é inevitável pra a condição do vivo se relacionar para formar os próprios comportamentos de sobrevivência, não é diferente na atualidade em que a tecnologia digital nos distância dos encontros presenciais mas não alcançam todas as sensibilidades da nossa percepção; olfato, paladar, temperatura, texturas etc.

 QUANTO TEMPO ESTAREI em REDES SOCIAIS e DENTRO DE CASA ?

O Tempo lógico, este do relógio convencional nos conta que estaremos cada vez mais tempo dentro de casa, o relógio biológico sempre exigirá ações práticas de cuidados e cultivo e o tempo digital não tem limites porque é voraz por atenção. São diferentes modos de compor CORPO e DIÁLOGO nesta conversa sobre TEMPO e VIDA COTIDIANA, afirmações de singularidades, e não vamos perder de vista que o pensamento hegemônico, este que é ditado pelo consumo e acúmulo do capital tem horror ao singular e ao tempo do cultivo, desqualifica o trabalho manual e a artesania dos nossos hábitos.

QUAL A IMPORTÂNCIA DO FAZER SIMPLES ?

Não vamos confundir simples com simplório que em nossa língua portuguesa tem a mesma origem. Para nós aqui nesta CONVERSA a importância do SIMPLES está na ordem dos gestos assertivos, da clareza expressiva, daquilo que realmente comunica por que exclui os excessos, diminui volumes desnecessários.

E VOCÊ , C O M O   V O C É    F A Z   ?

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Dublin para uma brasileira

Vithória Escobar, 24 anos, mora em Dublin, Irlanda, desde 2016.

Como foi a escolha da Irlanda?

Quando escolhi a Irlanda não tinha muitas expectativas e conhecia pouco do país. Minha mãe sempre me incentivou a ter uma experiência fora do Brasil depois que eu acabasse a faculdade e quando fui ver os possíveis destinos dei preferência para aqueles que eu pudesse, além de estudar, trabalhar legalmente. Na época as melhores opções eram Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Irlanda. Em nenhum momento pensei em ir para um lugar onde não se falasse inglês, até porque um dos focos era melhorar o idioma, mas hoje penso nessa possibilidade. Acabei escolhendo a Irlanda por ser mais central e me permitir acessar mais lugares com facilidade, até porque a Europa é muito pequena e fácil se deslocarem. Cheguei a ir até Edimburgo, consegui conhecer bem a cidade e voltar para casa no mesmo dia, por exemplo. Além disso não senti muito apelo pelos outros países.

Por não conhecer tanto sobre o país, isso gerou alguma insegurança na hora de tomar a decisão de se mudar para lá?

Deu muito medo porque quando eu vim para cá, não tinha ninguém aqui próximo a mim. Além disso, na época eu estava em uma fase muito feliz no Brasil. Estava saindo e me divertindo, ia ser promovida no trabalho que eu gostava e mesmo assim eu abri mão de tudo isso, então dá medo sim, mas chegando aqui eu senti que a cultura da Irlanda é muito receptiva e bem acolhedora no geral. Óbvio que passei por algumas situações que atestam o contrário, mas não me arrependo da escolha. Vim para ficar oito meses e voltar, mas i quis ficar mesmo com a Irlanda tendop

G seus defeitos. No começo não morava em uma casa tão boa, estudava e trabalhava de domingo a domingo, tinha minhas dificuldades, mas eu senti que me tornei mais adulta. Quis ficar por sentir que tinha crescido muito aqui e achei que tinha espaço para mais crescimento. Na Irlanda consegui me conectar comigo mesma de um jeito diferente. Em 2015, quando eu estava no Brasil já foi um ano muito importante para mim, acho que amadureci também, mas aqui foi muito mais, tive que me preocupar com coisas reais. Até brincava com meu vizinho que quando a gente ia tomar uma cerveja sentia saudades de falar sobre futilidades pois só falávamos de “coisas de adulto”: documentos, casa, trabalho. Falo isso sem reclamar, acho que isso é algo positivo.

E como você tomou a decisão de ficar depois dos oito primeiros meses vivendo aí?

Novamente devo muito a minha mãe porque ela sempre me impulsionou e me deu força pra ir além. Quando eu vim pra cá ela sempre falou que eu tinha que pensar maior, ver a chance de fazer uma pós, arrumar um trabalho. Quando foi chegando perto da época, completei seis meses aqui e tinha acabado de ficar estabilizada financeiramente, porque demorei uns quatro meses para conseguir um emprego fixo, mesmo com a facilidade de já ter vindo com o inglês bom. Depois de um mês trabalhando, estando estabelecida e com meu curso de inglês acabando, tive a sensação que ainda não estava pronta para voltar. Senti que tinha mais coisa para fazer aqui, crescer mais, viajar… Antes disso só estava na função de juntar dinheiro. A opção mais comum para ficar no país seria renovando o curso de inglês, mas já estava no nível da fluência, não tinha o porquê. Aí fiquei aqui trabalhando e iniciei um mestrado na minha área. Fiz alguns bicos de garçonete, empregada doméstica e cleaner. Mas meu primeiro trabalho foi montando sanduíches em uma loja, onde trabalho até hoje. Depois de um tempo passei para o caixa e agora estou no post office.

E teve algo na sua adaptação que te surpreendeu?

Quando cheguei fiquei em uma casa de família. Tive muita sorte porque minha host Family era bem querida, unida e tranquila. O que eu estranhei foi que na Irlanda, em geral, se come muito mal: muita coisa processada e sem muito tempero. O jantar as vezes era uma comida de micro-ondas, uma pizza, congelados… além de eles tomarem muito refrigerante. No almoço é comum comer um sanduíche. Também me surpreendi com o consumo de álcool, principalmente entre os mais velhos. Tenho a impressão que são os que mais bebem. O copo de pint equivale a mais ou menos 500ml e alguns bebem facilmente mais de 10. Quando eu trabalhava de caixa também era muito comum eles comprarem vodka e refrigerante/energético e beberem normalmente. Por ultimo, o consumo de heroína. Ja presenciei algumas pessoas injetando ou fumando na rua, muito triste e assustador.

E como é sua relação com a comunidade brasileira aí?

Estar na Irlanda me fez valorizar muito mais o Brasil como um todo. Meu primeiro contato  com brasileiros foi na escola de inglês. Na minha turma tinha bastante gente de vários lugares. Eu estava na cantina da escola, pedi um café, estava meio perdida. Na Griffith [Universidade em Dublin] tem gente de todo lugar, até por isso escolhi lá. Ouvi duas pessoas falando português e comecei a me enturmar. Tem gente que vem para Irlanda e parece que não sai do Brasil, eles só vão em lugar que tem brasileiro, saem com brasileiro, só falam português. E é fácil, porque você acha brasileiro em todo lugar, são a segunda maior população de imigrantes. Foi bom para mim inclusive ficar na host Family no começo porque era um bairro bem local, chamado Ballinter, com menos estrangeiros, enquanto no centro você tem contato com mais brasileiros e imigrantes, lá tinha menos.  Mas acho importante também construir uma rede de contatos com brasileiros. Os brasileiros têm um calor e uma interação muito única e você sente muito esse impacto aqui porque mesmo com as pessoas sendo legais é diferente, a gente é mais caloroso. Além disso eu sinto saudades da cultura. É reconfortante comer a comida, escutar a música, ter alguém para dividir as coisas.

Você chegou a ter um relacionamento com um irlandês aí né?

Sim, foi legal por que ele me contava muita coisa da Irlanda, ele gostava bastante de história e o pai dele também. Me ensinaram muita coisa. Tive muito contato com a cultura irlandesa por isso e sou muito grata a eles. É diferente aprender com alguém local. Eu tive sorte também, porque, como tinha dito, trabalhei em um bairro bem local [Terenure] onde a maioria dos clientes e os colegas de trabalho eram irlandeses, o que ajudou nessa ambientação.

E como foi namorar alguém que cresceu em uma sociedade com outra lógica cultural?

É diferente, tem lados negativos e positivos. Pode parecer idiota, mas você perde algumas coisas. Eu senti falta em por exemplo compartilhar um meme, que não dá pra explicar ou traduzir, escutar uma música brasileira, compartilhar coisas cotidianas da nossa cultura. Sentia falta porque gosto muito da cultura brasileira, mas é uma questão minha. Tem algumas situações chatas também. Por exemplo, quando você chega com uma pessoa de fora em um ambiente onde só tem brasileiro é complicado. As vezes as pessoas não se sentem à vontade em falar inglês. Sei que as vezes parece falta de educação, mas acho que é mais pelo lado da comodidade ou não falam tão bem o idioma. Então é inevitável essa função de ficar traduzindo ou ficar com aquele sentimento de preocupação de que a pessoa está se sentindo excluída. Você não tem como controlar as outras pessoas, mas eu também não as culpo. Se está em uma roda pequena e todo mundo falando português é muito chato, mas se tem muita gente não tem como controlar. Mas não acho que faça sentido não ficar com alguém simplesmente por não ser brasileiro/a, é algo adaptável. Além disso também é muito legal enxergar a cultura brasileira pelo ponto de vista de um estrangeiro, os dois lados acabam aprendendo bastante com essa troca.

E vivendo agora em um relacionamento com outra mulher, como você percebe a relação da sociedade irlandesa com a homossexualidade?

A Irlanda é extremamente católica e a população mais velha, que é grande e extremamente tradicional, tem mais essa questão, enquanto a nova geração é muito progressista. Porém já passei por casos de homofobia aqui. Uma vez eu e a Thay quase fomos expulsas de um táxi por eu ter colocado a mão em cima da perna dela. Mas apesar disso eu nunca me senti estranha segurando a mão dela em público por exemplo, enquanto no Brasil eu jamais me sentiria com a mesma liberdade. Me sinto até mal porque me sinto alienada nesse sentido, já que eu não sei como deve ser a preocupação que um casal de lésbicas deve sentir ao andar na rua, principalmente com o governo novo. Você não sabe quais são as pessoas na rua que votaram nesse cara e perpetuam com essa ideia. É uma coisa muito simbólica dele. Sei que tem gente que votou nele e não faria nada, mas não tem como saber quem pensa o que. Eu tenho o privilégio de nem pensar sobre isso quando saio com minha namorada na rua, eu pego na mão dela, dou beijo e não estou nem aí. Por mais que as vezes você perceba olhares estranhos de vez em quando não é algo que me preocupa, acho difícil algum dia uma situação dessas descambar para violência. Sem dúvidas no Brasil você tem que tomar muito mais cuidado

No ano passado a Irlanda, que era um dos últimos países europeus que criminalizava o aborto, legalizou a pratica através de um plebiscito. Como foi para você conviver com as campanhas a favor e contra e como esse debate se deu aí?

A lei antiabortiva aqui era uma das mais rigorosas do mundo. Não permitia aborto nem em casos de acefalia e estupro, apenas em casos de risco de vida para mãe. Além disso a pena podia chegar até 14 anos. Acho que esse foi a sexta votação no congresso e depois de muitas, pela primeira vez teve uma maioria e colocaram para voto popular, o que eu acho muito bacana: toda a população pode opinar. O sim acabou ganhando com uma maioria considerável [66.4%]. A campanha deles estava muito maior, muito mais forte. Na campanha ficou claro que a geração nova da Irlanda tem outra cabeça, enquanto a população mais velha ainda é muito mais conservadora. Lembro que na época da votação eu estava indo trabalhar com um bottom do “Sim”. Apesar de imigrantes não poderem votar eu apoiava a campanha e alguns clientes vieram tirar satisfações. Teve um que me recitou trechos da bíblia, por exemplo, o que mostra que aqui na Irlanda essa questão era delicada por conta do catolicismo, o que tornava parte da população mais resistente. A campanha do “Não” se apoiava muito na ideia pró vida, de aspecto mais emocional. Os cartazes giravam na lógica de falar que abortar era assassinar bebes. É parecido com a campanha antiabortiva no Brasil e acredito que em todo o mundo.

E como funcionam os plebiscitos públicos aí?

Os plebiscitos não são obrigatórios, as pessoas têm que se registrar para poder votar. Tem com certa frequência. Recentemente saiu um sobre a lei que proíbe a blasfêmia, por exemplo, [A lei foi anulada após vitória nas urnas], mas o do aborto foi bem mais popular. As pessoas batiam de porta em porta fazendo campanha.

E como é a questão da moradia na Irlanda?

No geral é terrível! A qualidade de vida versus o preço e a negligência dos proprietários com os imóveis, é surreal. As moradias são muito caras para uma condição precária e um descaso tamanho dos landlords. Um estúdio de 30 metros quadrados pode chegar a 1200 euros por mês. Você vê pessoas em condições terríveis, como um amigo meu que já mudou umas doze vezes, chegou a morar em um lugar que era de chão batido, com três beliches em cada quarto, sem armário e custava 300 euros por mês. Não tem lugares decentes e os proprietários cobram absurdos porque as pessoas pagam, tem muita demanda e não tem muito o que fazer. Eles não estão nem aí, não investem na qualidade do lugar, só querem o aluguel e fim. Além disso se você vai fazer uma visita sempre tem varias pessoas na fila e se você é imigrante e estudante sempre é mais difícil, eles acabam dando preferência para famílias. Minha primeira casa aqui era velha, ruim mofada, um porão insalubre. Tive colegas de quarto muito bagunceiros, a casa era suja e velha, minhas roupas amanheciam mofadas e meu landlord não fazia nada além de ir recolher o nosso aluguel. Nunca vou me esquecer quando ele falou que ia arrumar um banco da cozinha pra mim (que estava quebrado por meses) e ele voltou com o banco colado com fita durex verde. Inacreditável. Claro que foi estressante nesse sentido, mas era legal porque me dava bem com todos e me divertia muito. Todo mundo que morava  lá era muito querido. Estávamos todo mundo no mesmo barco. E na verdade eu tive sorte porque quando eu vim para cá encontrei uma amiga que já morava aqui, então uma pessoa que ela conhecia saiu de uma casa, ela me mandou mensagem, fiz a entrevista e fui aceita. Normalmente não é assim fácil, tem pessoas que demoram meses pra conseguir uma vaga minimamente decente.

E sobre a burocracia da imigração?

O sistema de imigração aqui é muito burocrático. Quando eu cheguei ainda não tinha sistema de agendamento online, as pessoas tinham que acordar 5 da manhã e ir até o prédio da imigração, mas você pegava o visto no mesmo dia. Quando fui fiquei dezoito horas lá, cheguei 5h e sai 18h. Hoje tem o agendamento, mas não funciona bem, tem gente que paga alguém para agendar para você. É um esquema de pessoas que hackearam o site e vendem o horário. Na questão do atendimento, tive sorte porque nunca ninguém foi mal-educado ou rude comigo, mas nunca é algo agradável. O complicado é que se o agente de imigração simplesmente não for com sua cara tem o risco de ele pode implicar com você e complicar sua vida. Tem muitos casos de oficiais na imigração que chegam a pedir pra ver seu celular.

E xenofobia? É algo que acontece por aí?

Infelizmente é muito comum, e de muitas formas. Já passei por várias situações horríveis. Uma vez eu estava andando e gravando um áudio no Whats App e apareceu um homem meio que me imitando, balbuciando, debochando. Aí eu perguntei qual era o problema e ele ficou me questionando, perguntou quem eu achava que era, gritou que eu estava no país dele e não poderia falar português. Chegou até a me seguir. Parei na frente de um pub com bastante gente, ele gritou comigo mas acabou indo embora. Mas tem muitos casos de violência. Atualmente tem ocorrido muitos casos de agressões graves em entregadores brasileiros. São grupos de adolescentes irlandeses que provocam, atacam e batem em estrangeiros sem motivo algum. Ao meu ver, os irlandeses tem uma cultura forte com a briga, eles “gostam” de brigar e sabem como se defender. Isso não necessariamente é algo ruim e de maneira nenhuma significa que todos os irlandeses são violentos. No entanto, é muito frequente se deparar com esses grupinhos que parece tem gosto por fazer bullying e arranjar briga. Eles te provocam, jogam ovo, água, lata de tinta, até taco de baseball.

No ambiente de trabalho também já passei por algumas, mas a maioria não são assim, são sutis. As vezes as pessoas olham pra mim e vão no caixa da minha amiga, ou então eu não entendo alguma palavra e as pessoas interagem comigo como se eu fosse burra, se irritam, duvidam do que eu estou falando e vão falar com outra funcionária. Isso acontece com certa frequência, tem muita gente que tem opiniões não muito boas.

Tem também o infeliz estereótipo de que brasileiro vem pra Irlanda para conseguir passaporte, isso afeta principalmente as mulheres. É muito machista. As brasileiras são muito sexualizadas, eles acham que podem assediar, fazer e tratar como querem. Um ano e meio atrás dia eu estava andando pelo Temple Bar [região onde se concentram os pubs em Dublin] e um cara colocou a mão nas minhas partes íntimas. Foi chocante. Tem um grupo de brasileiras no Facebook onde direto vejo mulheres postando relatos horríveis.

Enfim, e bem desagradável ter que passar por tudo isso, dependendo da situação me abala bastante. Ser chamada de burra, estupida, ouvir um “go back to your country” ou “brazilian animal” é algo que machuca. Eu penso que o melhor jeito de reagir é quebrar a pessoa na educação, mas é difícil. Você tem que ser mais racional nessas situações, mas no calor do momento você fica tão nervoso que você meio que trava.

Como você cuida da sua saúde mental por aí?

Eu considero importante quando você está fora e não tem um apoio estrutural da família, criar uma rede de afeto forte com amigos, com as pessoas que você convive e contar com a ajuda delas. Aqui é muito fácil você sair do eixo justamente pela falta de estrutura emocional. O inverno é muito frio e escuro, o que pode mexer bastante com sua cabeça, se você não se cuida pode ficar depressivo. Ate por falta de vitamina D, algo fisiológico. Particularmente, sempre fui bem ligada a espiritualidade, tento buscar equilíbrio nisso. As vezes vou em uma casa de umbanda, faço terapias holísticas com regularidade, sou bem ligada nessa parte, isso é essencial para mim e me ajuda muito. Entretanto tem gente que não é tanto e é complicado, porque é muito estresse, pode mexer demais com sua cabeça. Aqui soma-se o fato de que as pessoas estão sozinhas, elas têm mais acesso e liberdade para usar drogas, o que pode ser perigoso.

As casas de umbanda são de imigrantes ou de irlandeses?

As casas de umbanda são de brasileiras, descobri uma vez quando fui tirar tarô. Me falaram que eu estava distante da minha espiritualidade, que precisava me aproximar mais disso e me sugeriram essa casa, que era a única de Dublin na época. Fui algumas vezes e ano passado abriu uma nova, que achei maravilhosa. As duas tem material informativo em inglês e são abertos para todos, mas a maioria dos frequentadores são brasileiros. Existem casos pontuais, mas na Irlanda eles são muito católicos, não conhecem muito de espiritualidade fora da lógica católica-protestante.

Como você enxerga seu futuro na Irlanda?

Eu quero continuar aqui porque pretendo construir uma carreira internacional, fazer o máximo que posso com essa oportunidade. Quero entrar no mercado de trabalho, trazer uma visão feminina, imigrante, LGBTQIA+ para dentro. A Irlanda está recebendo muitas empresas, se destacando no ramo de tecnologia e empreendedorismo, quero aproveitar  o momento para me amadurecer como profissional. Eu amo o Brasil, sinto falta, mas  a Irlanda é minha casa hoje. Me vejo aqui nesse momento como pessoa e profissionalmente. Tenho planos de um doutorado em alguns anos também no exterior, enfim quero dar o melhor que eu posso. Porém também não vejo a Irlanda como um país para morar para sempre, hoje quero ficar aqui por objetivos profissionais. Em alguns anos pretendo voltar ao Brasil, criar família lá. O Brasil é maravilhoso, certamente voltarei em algum momento.

E como você enxerga o momento atual do Brasil daí?

É muito triste, mas vejo que o mundo inteiro está nessa onda conservadora maluca. Aqui na Irlanda se discute muito o Brexit, visto como um movimento anti-imigrante e xenofóbico por parte da Inglaterra. Mas o Brasil esta sofrendo um baque muito intenso. Eu não consigo ver o Brasil assim pra sempre, acredito que somos maiores, é doloroso, mas é necessário para nossa evolução. Tem muitas coisas boas acontecendo também. Fomos muito alienados muito tempo e agora temos que colocar as coisas para fora e discutir. A gente sofre estando aqui, mas não tanto, não é a mesma coisa. Eu me sinto mal as vezes por estar aqui em um momento tão importante para o Brasil, bate uma sensação de impotência. Sinto falta de ir aos protestos, fazer algo mais palpável, sabe? É frustrante. É sim um privilégio acompanhar de longe, mas frustrante de certa forma.

E como os irlandeses estão vendo essa situação?

Eles acham algo absurdo o que acontece no Brasil. Na época das eleições, estava muito estressada e ansiosa. Minha chefe me perguntou sobre, dei uma breve explicação e ela se assustou, falou que na Irlanda ele jamais teria força para ser candidato à presidência. Apesar dos casos xenofóbicos, os brasileiros são queridos aqui. Eles nos veem como um povo alegre, caloroso, educado. Os irlandeses não entendem como todas essas coisas ruins acontecem no Brasil, de uma forma até meio ingênua. Eles se chocam com a realidade brasileira de intolerância, violência, desigualdade social, corrupção.

o humano em nós

Ninguém nasce humano, se torna um. Em nossos primeiros momentos de vida, aspectos como preferências pessoais e hábitos cotidianos não existem. Tais características, que modelam nossos corpos nas diferentes culturas, são assimiladas e anatomizadas ao longo de toda a nossa existência,  este é um processo contínuo que nos confere uma natureza humana. Antes disso, o que temos de inato nos assemelha aos demais animais: adaptativos as regras e imposições do meio que nos rodeia. A diferença surge da nossa capacidade única de acumular conhecimento através das gerações – por meio do desenvolvimento de idiomas. O que nos permite acessar o passado, imaginar futuro e compartilhá-los com outros seres humanos. Essa qualidade é vital para o surgimento e manutenção das mais diferentes culturas espalhadas pela Terra. Elas aprofundam nossa diversidade como espécie, mas também revelam nosso principal ponto em comum: a capacidade de nos diferenciar.

Ao crescermos imersos em um sistema de valores, normas, crenças e conhecimentos de certa cultura, sofremos o chamado processo de endoculturação, quando nosso cotidiano e as instituições com as quais convivemos moldam nossa cultura e uma forma primária de enxergar a vida e o mundo. Porém o rumo da história tornou cada vez mais difícil (principalmente com o avanço da globalização) que grupos humanos permaneçam isolados, o que gera uma troca cultural, a aculturação, processo que se agrava em situações de imersão cultural como em casos de imigração.

Viver em uma sociedade de diferente cultura é se expor a diferentes formas de aculturação. Desde o planejamento prévio do novo cotidiano, passando pela troca cultural natural ao estar imerso em uma nova lógica de viver até situações forçadas, que podem ser bastante agressivas e traumáticas, onde uma pessoa busca impor sua forma de viver sobre a de outra. Obrigar alguém a assimilar e praticar uma cultura é algo antigo na história da humanidade e é principalmente motivado pela aversão ao desconhecido, a não aceitação de outras formas de vida e é o ponto de partida para a consolidação de fenômenos como o racismo e a xenofobia.

Culturas são corpos que precisam que seus padrões sejam repetidos por certa população para se manterem. Na Europa, durante a Idade Média, o contexto histórico fez com que houvesse um grande encontro entre diferentes povos. A situação gerou uma competição entre eles a fim de garantir que seus costumes e hábitos não apenas se mantivessem, mas que dominassem os outros a fim de se firmarem e prosperarem, criando uma falsa ideia (até hoje muito difundida) que existe uma hierarquização entre as culturas.

Nesse contexto, construiu-se também a noção de povos bárbaros, monstruosos, que vivem fora da civilização. A cultura alheia passou a ser demonizada e inferiorizada. Além dos diferentes costumes, novos povos apresentavam também características físicas diferentes dos europeus e assim criou-se estereótipos relacionando cultura e aparência. Os selvagens, assassinos e inimigos do chamado progresso eram assim classificados pelos europeus por terem diferentes tons de pele, formatos de rosto então pouco comuns no Velho Continente, distintas cores e texturas de cabelo… a intolerância cultural construiu aos poucos as bases para o racismo moderno.

É verdade que durante o Iluminismo nasceu um racismo chamado de científico, que afirmava que diferentes povos tinham níveis de capacidade menores ou maiores devido a uma certa genética. Assim nasceu a noção de raça, onde os brancos europeus, autores da tese, eram tidos como a superior, e as demais eram vistas como menos capacitadas. Porém com o avanço da ciência e a prova que tal teoria não condiz com a realidade, o mundo voltou a se abraçar nas velhas noções europeias de superioridade cultural e de estereotipar outras visões de mundo com características físicas para propagar o preconceito e o medo do diferente.

O racismo moderno ganhou também um grande aliado, que o legitima e fortalece: o colonialismo, que mais tarde se confundiria com o nacionalismo. Tais elementos conferiram poder às elites de cada lugar, criando dois tipos de grupos sociais. De um lado os dominantes, que colocam sua cultura como a “certa”, do outro as minorias, grupos que devido a hábitos culturais e/ou características físicas associadas, por quem domina, à inferioridade, se viram destituídos de poder e recursos. É importante frisar que uma minoria social é um termo qualitativo e não quantitativo. Um exemplo pode ser visto no Brasil: negros são maioria em termos populacionais, porém socialmente são entendidos como minoria, já que o processo histórico do país os colocou em visível desvantagem de oportunidades e direitos.

No século XXI é esse o contexto que impera em diversas partes do mundo. O racismo está presente nos governos, como na lei anti-burca em vigor em países europeus como França e Áustria, passando pela presidência de Donald Trump, que tentou promover um veto a imigrantes islâmicos e que luta para erguer um medieval muro na fronteira com o vizinho México (cuja cultura e história se confundem e se mesclam com a dos EUA, principalmente nos estados fronteiriços, muitos dos quais inclusive eram território mexicano até serem incorporados). Ele aparece também na própria população, como nos recentes casos de latinos ofendidos e ameaçados por falarem espanhol dentro dos Estados Unidos e dos casos de intolerância contra refugiados venezuelanos que entram no Brasil por Roraima.

O cenário xenófobo, que assusta imigrantes ao redor do mundo, porém não é uma regra absoluta. O Canadá, de Justin Trudeau, por exemplo tem planos de receber 1 milhão de imigrantes até 2021 e possuí políticas de acolhimento de refugiados e de integração destes com a população canadense, indo na contramão de seu vizinho ao sul. O primeiro ministro do país parece entender bem o conceito básico de ser humano, não compreendido por tantos outros líderes mundiais atuais: que nosso ponto mais em comum é nossa capacidade de nos diferenciar, ou seja; o quanto a singularidade humana contribui nos processos de interação social, ampliando nosso repertório mental, comportamental e emocional, de maneira a alcançar, o tão desejado senso de pertencimento.

Brasileiros, o vai e vem da imigração

O Brasil, desde que foi colonizado por Portugal, tem sido o destino de milhões de imigrantes ao longo dos séculos. Das origens, credos, raças e idades mais diversas, esses homens e mulheres desembarcaram, no que hoje entendemos como um país, para através de uma complexa troca de culturas formar nossa sociedade. Somos um corpo social dono de literatura, música, história, tradições e povos únicos, que se combinaram para arquitetar, mesmo que inconscientemente, modos de viver pelas cidades deste território. Das movimentadas avenidas de centros urbanos até as mais isoladas tribos amazônicas, tudo contribui, de alguma forma, no que implica ser brasileiro.

Desse conjunto de pessoas que por conta da imigração, nasceram e tornaram-se cidadãos desta pátria, uma parte destes imigrantes voltaram para o país de origem, e outra  parte que não retornou a sua terra natal, tiveram filhos, netos e relações importantes à própria trajetória, desta forma mesclaram comportamentos, hábitos, vida cotidiana e valores na condição de estrangeiro. Encontraremos em seus testemunhos, modos de interagir, preservar seus costumes, sua gastronomia e memórias, de adaptar-se ao clima e a cultura. Trajetórias e comportamentos que nos interessa pela capacidade em aprender, tomar decisões, criar novos cursos de vida e condições para o bem-estar.

A partir de trocas e de conversas levamos em consideração as pequenas particularidades de cada cotidiano e como estas foram construídas. Se mudanças simples dentro do mesmo território podem causar impactos muito maiores do que podemos imaginar antes de vive-las, podemos ponderar se o impacto é  intensificado para quem passa a viver em terras estrangeiras.

Rotinas são importantes a nossa construção psíquica, ao modo como pensamos, sentimos e agimos para integrar-se e vincular-se com outras pessoas. A localidade geográfica também provoca mudanças em nossa percepção e sentimentos. Podemos até mesmo mudar nossas vontades, sobre qual rumo seguir, questionar verdades e revelar novos interesses, porque somos influenciados pelos ambientes e culturas da mesma maneira que também influenciamos.

O dia a dia das pessoas é construído pelo desenrolar de diferentes hábitos  individuais, coletivos e específicos por localidade, perpetuando ou não através das gerações. Cada país tem suas especificidades, o que torna o desafio de se viver em cada um deles uma aventura humana cheia de particularidades. A forma como nós, humanos, usamos cada ambiente pelos séculos fica marcada em sua geografia e consequentemente influencia quem a habita. É também o caso do momento histórico, dos regimes vigentes, da biota, do clima e entre outros tantos que seria inútil tentar enumerar todos, portanto nos ocupamos enquanto pesquisadores do comportamento com as particularidades, com os modos de fazer e se entender como parte integrada aos ambientes.

Nesta coluna, a pauta é buscar reflexão sobre como cada comportamento pode ser influenciado por essa conjunto de fatores históricos, sociais, políticos, geográficos e psicológicos. Como processamos por entre camadas também biológicas as formas de adaptação, as misturas e as anatomias de conexão com os ambientes e subjetividades inerentes a existência humana.

Mesclando com o estudo do comportamento referencias geográficas, históricas, culturais, com o jornalismo documental, o uso das imagens, da literatura e com as diferentes perguntas que chegam através deste site traçamos metas em busca de respostas e novas perguntas. Para começar: o que podemos aprender sobre nós mesmos e os outros ao pensar juntos cada uma destas camadas que nos constitui? Quais a influência de cada ponto geográfico de nosso planeta sobre quem vive nele? O que somos capazes de descobrir sobre o comportamento humano? E sobre nós, brasileiros? Estas perguntas estarão sempre abertas a participação de nossos leitores, através dos comentários, questões e testemunhos de quem vive no corpo diferentes histórias de imigração e de ser brasileiro em território estrangeiro.

Esta é uma coluna dedicada à maior compreensão do que está na origem dos nossos comportamentos enquanto sujeitos ativos e criativos, porque não nos basta respostas na lógica de causa e efeitos, mas sim os processos formativos, as dinâmicas vivas e singulares que trazem ao leitor subsídios para se entender cidadão no mundo e tomar atitudes comprometidas com redes de pertencimento e de acesso.

   Participe! Escreva para nós, compartilhe o que vive como brasileiro em qualquer lugar deste planeta.

 


CORRESPONDENTES

Henrique de Castro | Jornalista

Glauco Soto | Psicólogo  

Sheila Amarante | Psicóloga

Japão para uma brasileira

O clássico filme Era Uma Vez Em Tóquio, de 1953, começa com uma série de imagens da capital japonesa. Crianças andam pelas calçadas com seus bonés e mochilas rumo à escola, pequenas casas em uma colina revelam as destrezas em carpintaria dos habitantes do país – muitos detalhes em madeiras e simpáticos telhados com sutis curvaturas. Um trem passa desapressado entre os quarteirões e balança algumas roupas penduradas em um varal ao lado do trilho. As folhas das árvores de galhos retorcidos provêm alguma sombra enquanto senhores com tradicionais quimonos se sentam ao chão e folheiam um livro. O interior das casas é repleto de divisórias de madeira e pequenos artesanatos pendurados nos cantos. Esse era o Japão que povoava a cabeça de Sheila durante sua infância em São Paulo. O país do sol nascente sempre foi imaginado por ela como as cenas dos antigos filmes japoneses, que retratavam a vida cotidiana e quase interiorana – para uma criança acostumada com a imensidão da capital paulistana- de seu povo.

A curiosidade em conhecer o Japão foi crescendo e se tornou realidade quase que por acaso, quando Sheila teve a oportunidade de fazer as malas e atravessar o mundo para viver em Osaka para ministrar aulas de dança no país. Ao desembarcar no Aeroporto de Kansai, em Osaka, o país que ela encontrou era muito mais próximo da abertura de um filme hollywoodiano mostrando a imensidão de Nova Iorque. Uma variedade de luzes das mais diferentes cores, tecnologias futurísticas, um fluxo intenso de pessoas e um mar de prédios para nenhum paulistano colocar defeito denunciavam que o país já não era o mesmo do começo do século.

A surpresa foi grande. Um local novo, diferente do que ela imaginava, com um povo que falava outra língua e até mesmo um novo alfabeto. Sheila mergulhou em um mundo quase que alheio ao que ela estava acostumada a viver, no bairro do Ipiranga. A sensação de estar em território estrangeiro entretanto , não era apenas uma montanha russa de emoções rápida que duraria algumas semanas e resultaria em uma mala cheia de souvenires despachada de volta rumo aeroporto de Guarulhos. O Japão seria a partir daquele dia sua nova casa, onde ela desenvolveria seu novo cotidiano, seus novos hábitos, onde ela conheceria o seu novo supermercado do bairro e as novas esquinas as quais ela dobraria diariamente.

No começo Sheila não falava nada do idioma,porém era auxiliada por Maria, que a havia contratado para o trabalho. Vivia com um grupo de brasileiros e tinha a ajuda de sua contratante, também vinda de terras tupiniquins, para resolver assuntos burocráticos do trabalho, de documentação e relativos a residência. Hoje as coisas mudaram. Sheila construiu aos poucos sua vida no novo país. Hoje mora em seu próprio apartamento, ministra as aulas de dança por conta própria em algumas academias em Osaka e vive de maneira mais independente e integrada a cultura que a acolheu e que hoje é parte importante de sua experiência de vida, como uma mulher brasileira negra vivendo em uma sociedade diametralmente oposta daquela em que nasceu.

Aprendeu a se comunicar na nova língua e descobriu novos modos de se viver no planeta. Desde os pequenos detalhes como a despreocupação dos japoneses em deixar as sacolas de compras no cesto da bicicleta encostada na calçada, sem nenhum vigia, até os diferentes modos deles de se relacionarem, suas personalidades distintas, moldadas por hábitos e ideologias locais. Durante os anos se adaptou à nova vida e construiu também seu próprio ser e estar em Osaka, provenientes de sua vivência como brasileira por lá. Treze anos depois e mais confortável no país ,Sheila reflete sobre a maneira como a vida anda na Ásia, e como isso impactou sua própria maneira de interagir e se construir como um ser individual e coletivo no Japão.

– Quando chegou ao Japão, o que te chamou a atenção logo de início?

Nos primeiros dois ou três dias eu tive uma sensação familiar de estar em casa. Me senti no bairro da Liberdade em São Paulo, era como se tivesse transportado um local para o outro. Estava com o imaginário do Japão antigo, simples, em tons de marrom envelhecido na cabeça, que na hora que cheguei deu lugar a um brilho moderno. Assim como no bairro paulistano, havia tumulto, comércio, restaurantes… e eu também já estava familiarizada a conviver com pessoas orientais e sua cultura. O que me surpreendeu mesmo foi encontrar toda essa vida moderna. O local que morava em Osaka ajudava na sensação: era o centro do centro, havia muito burburinho e barulho de dia e noite. Muitos bares, vida noturna pulsante. Quando cheguei era maio, ou seja, primavera. Havia muito sol, o que fazia com que também tivessem muitas pessoas na rua de dia. A maior mudança do meu cotidiano, foi como eu usava o transporte público, já que por aqui quase não tem ônibus. Perto de casa me locomovia de bicicleta. Era um grande trânsito de bicicletas, um verdadeiro fluxo com as próprias regras. No início foi difícil me habituar. Era muito diferente do Brasil, onde há um certo caos de pessoas se trombando e esbarrando. Por aqui tudo tem uma ordem perfeita. Para ir até os lugares mais distantes os trens resolvem o problema, são extremamente pontuais e organizados, mas a bicicleta ainda é mais prática. Ainda hoje faço tudo de bike. É bom que isso também me deixa ver a paisagem, me deslocar com calma, sem o estresse de São Paulo.

– Como foi conciliar seus hábitos ocidentais com os dos japoneses?

Uma coisa que é um desafio até hoje nesse choque de hábitos é a questão do horário. Eu sempre fui de chegar um pouco atrasada nos lugares. O problema é que no Japão a pontualidade é muito valorizada. No início, minha chefe brasileira, deixava claro que essa característica não existia por aqui. O horário é algo extremamente rígido. Há até mesmo um protocolo de chegar meia hora antes dos compromissos. Ela até entendia a situação e tolerava pequenos atrasos, mas quando entrei em contato direto com os japoneses percebi o quanto tudo isso é levado a sério. O contato entre chefe e funcionário é bem diferente aqui, no meu caso não me diziam diretamente quando ficavam incomodados com atrasos, por exemplo, era alguém que vinha me falar. Nessas situações senti que eles parecem não saber lidar muito bem com estrangeiros, sendo inclusive mais rígidos com os próprios japoneses. Houve um feriado que não fui dar aula, por exemplo, pois não sabia como funcionava os feriados locais. Isso deixou minha chefe bem brava. Outro desafio é a língua. Eu me saio até que bem nisso por ser bastante comunicativa, não ter vergonha de perguntar as coisas, mas o complicado é quando alguém te interpreta errado por algum motivo. Os japoneses, porém, sempre foram pacientes nisso, elogiam minha pronúncia e esforço em aprender o idioma. Percebi que isso tem mais a ver comigo por não ter ascendência oriental. Os brasileiros filhos de japoneses, por outro lado, são constantemente cobrados a falar bem o japonês e se adequar aos hábitos. Algo diferente disso é considerado inadmissível. Essa cobrança mais leve por um lado é boa para se adaptar aos poucos, mas gosto de sair da zona de conforto também, o que te força a se virar.

– No começo da sua vida em Osaka você morou com brasileiros. Quais os impactos que você sentiu quando foi morar sozinha?

Morei com um grupo de brasileiros no primeiro trabalho, aí cada um tomou um rumo quando tudo acabou. Eu acabei indo morar com uma bailarina que trabalhava comigo, a Cláudia, o marido e as filhas. Eles eram brasileiros, mas já estavam por aqui fazia anos. Falavam bem o idioma e me ajudavam muito nisso e também a resolver assuntos burocráticos e de documentos. Eles praticamente me adotaram. Quando eles se mudaram fiquei desesperada pensando para onde iria. Acabei me mudando por intermédio de uma japonesa que me ofereceu trabalho em Centros Culturais .Ela me apresentou a vários locais legais na cidade ,e também aquele que acabaria se tornando meu apartamento. Todo esse processo me ajudou a ir me assentando com calma no Japão até buscar a independência de morar sozinha. Nos primeiros dias houve um certo medo de ficar sozinha, sentir que agora era eu por mim mesma e não mais rodeada de pessoas. Uma amiga morava perto, ia jantar na casa dela de vez em quando… isso ajudou. Surgiram alguns desafios, uma maior responsabilidade de pagar todas as contas sozinha, mas eu já buscava essa independência, ir no mercado, lembrar as coisas que as pessoas me ensinavam para resolver as questões do dia a dia. Tive todo esse processo de aprendizado com muita gente, que me ajudou desde que cheguei, por isso sou muito grata. Mas com certeza no momento que aconteceu de eu ir morar sozinha houve aquele impacto: agora ou eu cresço ou eu cresço.

– Você considera o Japão sua casa hoje?

Tive uma educação muito rígida. Por isso sempre me preocupei em não ser mal interpretada morando com os brasileiros, principalmente com as crianças. Tinha muita cerimônia. Quando mudei para o meu apartamento depois de tanto tempo aqui, percebi uma demora para me sentir a vontade até para colocar os pés no sofá da minha casa, por exemplo. Reconhecer o local que eu estou como minha casa demorou bastante. Tudo era provisório antes e isso de certa forma continuou. Eu nunca montei meu apartamento com a minha personalidade, com minha mobília, as coisas que eu queria. Até hoje existe, portanto, essa espécie de distância, da falta de se sentir completamente à vontade. Eu estou completamente adaptada ao Japão, mas mesmo assim ainda não vejo o país como minha casa.

– Como você percebeu a experiencia do japonês ao conviver com você como estrangeira?

No começo me abordavam na rua e pediam para tirar foto, tocar minhas tranças, minha pele, era um assédio mesmo. Eles pareciam ficar felizes em me ver, perguntavam de onde eu era, elogiavam meus dentes e o fato dos meus olhos serem grandes. Eu senti até um certo endeusamento. Eles me achavam descolada.Eu percebia isso desde os primeiros dias. Com os anos e’ verdade que houve alguma mudança,já que se tornou mais comum estrangeiros por aqui .Mas isso nunca chegou a me incomodar. Eu achava engraçado e diferente o fato de eles me olharem daquele jeito e me considerarem tão curiosa e interessante.

– Como é sua relação com os espaços públicos?

Eu estudei em escola pública, lá éramos sempre orientados a participar de tudo o que a cidade nos oferecia, como bibliotecas públicas, parques e museus. Sempre fiz muita coisa a pé também. Meu pai levava eu e meus irmãos ao Ibirapuera aos finais de semana. A partir disso me habituei a utilizar o espaço público e participar de eventos e atividades como shows no Anhangabaú. Em São Paulo adorava fazer as coisas sozinha, ir à Vila Madalena escutar música ao vivo. Sinto falta de tudo isso. Aqui tem sim bares e discos, mas o ritmo é diferente, o brasileiro parece ter uma energia especial. Aqui as vezes vou ao cinema, mas o idioma é um impedimento. Também já fui a uma peça de teatro tradicional japonês. Eu participo de um grupo budista, vou a parques e museus com amigos as vezes, mas sinto falta da vida cultural de São Paulo. Não apenas da cultural, como da gastronômica: você pode comer pratos de todos os lugares do mundo. Aqui até tem, mas eles são adaptados para o gosto do japones, a comida é mais adocicada, cheiros e sabores fortes não fazem sucesso.

– Como você cuida da sua saúde mental?

Eu adotei algumas características e normas japonesas que me fazem bem. Aqui é tudo tão organizado e ajeitado. É uma engrenagem que as vezes pode ser meio rígida, portanto procuro ser fluída também. Sou sempre muito grata ao lugar que me recebeu, acho que aceitar onde estou é importante para viver bem e isso não importa onde seja. Sempre procuro ver mais os benefícios do que os malefícios e aprender algo novo a cada dia com as pessoas. Isso tudo me encanta e contribuí para que eu me sinta bem. Algumas atitudes culturais eu não entendo ou não concordo, por exemplo algumas questões humanas, mas venho aceitando que eles são desse jeito e tem que ir mudando no tempo deles. Eu aproveito o que o país oferece, sem ultrapassar os limites deles e sempre que posso procuro acrescentar algo positivo com minha visão diferente. Por ser um país de primeiro mundo, ajuda também fatores como a sensação de segurança e a saúde pública. Existem muitos desafios em estar em uma cultura tão diferente, mas não é impedimento.Com o passar do tempo, ao ser bem recebida nos lugares, ver o trabalho caminhar, surge um sentimento de satisfação, aumenta-se a autoestima e isso faz com que eu me sinta mais segura.

– Quais as principais diferenças ao viver no Brasil e no Japão?

Eu não voltei a morar no Brasil, então não sei direito como vejo e percebo as diferenças de hoje em dia.O que eu sei é que no Japão eu percebi o como temos melhores oportunidades. Independentemente da classe social as pessoas têm as mesmas oportunidades, elas tomam o trem juntas, por exemplo. O japonês é um povo mais humilde. Além disso o retorno financeiro vem muito mais rápido aqui. Vejo ainda uma aceitação maior dos japoneses com diferentes hábitos de vestimenta, de usar o cabelo… Uma coisa que me surpreendeu é que vejo o Japão como um país quase nada racista. Eles têm um pouco de nacionalismo, entretanto, há sim certo preconceito com o estrangeiro em algumas oportunidades. Porém eu nunca me senti humilhada ou acuada aqui, sempre fui respeitada.

– Como você se sente morando aí?

Desde que cheguei amo morar aqui. Adoro a segurança, a paz de andar nas ruas, a comida, as pessoas, a sensação de ser bem recebida, a tranquilidade tão distante do caos brasileiro… Ainda hoje sinto isso. A diferença nos dias atuais é que me sinto preparada para partir. Acho que posso aprender mais, tenho vontade de ir para outro lugar passar por novos desafios. Não parei de gostar, mas já me sinto bem alimentada no Japão.


 

Sheila Amarante, psicóloga e bailarina desde sempre

Texto e entrevista:

Henrique Castro | jornalista

vida diária

“Na casa onde uma criança nasce, todos os objetos mudam de sentido, começam a esperar dela uma tratamento ainda indeterminado, há algo mais ali; uma nova história, breve ou longa, acaba de ser fundada, um novo registro é aberto”

| Merleau Ponty. 1945

Desde uma simples tarefa da vida cotidiana há uma organização corporal envolvendo formas de pensar, de conhecer, de sentir e agir nele. Em cada ação temos possibilidades de renovar sentidos ou reproduzir os mesmos sentidos desvitalizados,

A casa, a rua, a cidade e o local de trabalho são ambientes de exploração e criação quando estamos atentos para encontrar um lugar de fala expressiva, vinculada à experiência sensível com a vida que se tem, com o corpo que cria ambientes.

Estar atento ao cotidiano que temos é investigar nele o protagonismo que exercemos como sujeitos de ações biológicas, sociais e políticas, são todas estas camadas que constituem nossos comportamentos e que estão modelando nossos corpos por meio de modos/estilos de vida. Está no modo como fazemos para se deslocar, para se alimentar, vincular-se e expressar-se no mundo uma prática diária de manejo dos afetos. Tomamos como exemplo uma simples caminhada até o mercado mais próximo, podemos fazer desta atividade um exercício de cansaço, atribuindo o esforço da caminhada até o mercado como uma experiência de obrigatoriedade sem sentido, uma tarefa imposta de fora para dentro, associar sensações físicas próprias a caminhada, como aumento de batimento cardíaco, calor, desconforto muscular e sede como efeitos de uma opressão, imposta pela obrigatoriedade. A mesma caminhada até o mercado com as mesmas sensações físicas podem ganhar novos sentidos quando quem caminha até o mercado investiga no próprio corpo os efeitos do caminhar enquanto olha a paisagem, as pessoas, as conversas e dinâmicas da cidade.

Ao atribuirmos palavras as experiências corporais, ao descrevermos nossas experiências enquanto andamos até o  mercado mais próximo estamos praticando potências.

Escolher palavras para descrever o vivido é uma prática corporal, façamos um exercício agora mesmo: escolha uma palavra que diga sobre sua própria experiência de caminhar até o mercado mais próximo, feito a escolha muitas outras conexões aparecerão com o uso das palavras, acompanhadas de sensações, uma memória corporal.

Essencialmente produzimos diferenças por meio de composições, combinando fragmentos do que colhemos ao longo de um percurso, seja ele curto ou longo.

Historicamente principalmente a partir da ciência moderna passamos a valorizar o tempo que cabe no relógio, orientamos nossa percepção, relações sociais e vínculos a partir de uma única lógica: uma espécie de encantamento por verdades únicas, acertar é chegar na hora certa, se comportar de maneira adequada a uma estética moral e normativa. Isso só nos fez cada vez mais aprisionados às sensações de inadequação e exclusão das relações, instituições e territórios de pertencimento.