“um jornalista interessado na vida das pessoas”

O trabalho com Henrique Castro teve início em Agosto de 2016 e desde então me chama atenção a importância que ele atribui a história da vida das pessoas contada por elas e  como ele fez disso um dispositivo jornalístico em seu método de pesquisa para descrever acontecimentos históricos. Me interessou profundamente o modo como um jornalista pode dedicar seu trabalho de escuta de diferentes histórias pessoas sem interpreta-las ou afirmando suas próprias conclusões ou verdades.

Desta maneira Henrique compõem um escrita por composição de diferentes personagens, com narrativas carregadas de experiências pessoais, que são afetivas e também são geopolíticas. Sem tirar nem por nada que altere o percurso de quem narra a própria história alcançamos como leitores de seu texto as informações, os fatos, os acontecimentos e perspectivas com certo gosto de literatura, ao ler nos envolvemos com personagens que nos oferecem registros profundos de quem viveu e pode contar com todas as marcas do vivido, afirmando a realidade dos corpos como fruto de seu tempo, de seus ambientes e de suas singularidades.

A partir da parceria profissional com Henrique encontrei um modo de escrever minhas próprias pesquisas, entrevistas, processos formativos e fragmentos do trabalho clínico enquanto psicólogo e terapeuta, me favoreceu escrever de maneira similar algumas das tantas histórias que escuto diariamente e que não só dizem respeito ao indivíduo mas também sobre as redes afetivas, são as marcas profundas de um tempo, um lugar, uma rede de relações, afetos e significados sobre a vida das pessoas, mostrando modos de construir pontes, alianças e estilos de viver, criar e amadurecer comportamentos.

Este é um blog escrito de maneira similar ao trabalho de Henrique, que evita julgar, sobrepor ideais, afirmar lugares de poder e saber favorecendo a conexão entre histórias individuais pra dizer como formamos CORPO, PENSAMENTO e AÇÃO, privilegiando narrativas pessoais.

A ENTREVISTA COM HENRIQUE

Glauco: Que tipo de jornalismo te interessa fazer?

Henrique: Apesar de reconhecer a óbvia importância e necessidade, nunca gostei muito de fazer jornalismo hard news – o chamado em tempo real -, que trata de pautas importantes para o agora. São as notícias relevantes do dia, mas que não necessariamente vão continuar sendo semana que vem. O que me atrai são pautas não datadas, atemporais, que não perdem sua relevância ao longo do tempo. Essa preferência veio desde cedo, inclusive no que eu consumia. Exemplos: revistas científicas e reportagens que trazem detalhes das vidas dos personagens. Eu gosto muito da ideia do jornalismo como ferramenta para contar histórias e a atração por sua forma literária veio da minha percepção de que reportar algo não é apenas o ato de informar, mas também o de entreter, dar voz, inspirar, denunciar, contextualizar e, para isso, acho que se deve fugir de fórmulas engessadas. Nisso inclusive, além do estilo, o próprio tamanho do texto faz diferença: são reportagens longas, para se saborear.

Glauco: Qual é esse gosto pela leitura no jornalismo literário que não há no hard news? Existe uma possibilidade de usar do discurso da vida das pessoas para entender qualquer coisa? Ao contar a história de um personagem eu posso estar contando uma história que é geopolítica, épica, que é atravessada por diferentes histórias de mais pessoas? O jornalismo literário tem essa possibilidade de alcance?

Henrique: Acredito que sim. Existem várias maneiras de mostrar uma realidade complexa como o jornalismo de dados, onde se destrincham números e estatísticas a fim de se tirar uma conclusão sobre algum tema. Inclusive admiro muito essa forma de se fazer jornalismo. Dela surgem insights que dificilmente seriam obtidos de outra maneira. O que me atraí no jornalismo literário entretanto, é a humanização que ele traz. É outra experiência ouvir o dia a dia de uma personagem, suas considerações sobre algo, vontades, experiências, opiniões, medos. Eu tendo a acreditar que alguém tem maior probabilidade de se sentir tocado por uma história quando conhece o rosto por trás dela. É só ver como são normalizadas notícias de tragédias no jornalismo hard news. Elas, muitas vezes, falham em nos conscientizar e nos emocionar, são tratadas com distância pelo leitor: “é uma pena, mas a vida segue”. Um exemplo: quando um âncora fala no rádio que um grupo de refugiados, tentando entrar na Europa, foi interceptado pelas autoridades e enviado de volta. Se você não tem uma familiaridade e vivência com o assunto, é provável que depois do almoço você nem se lembre mais disso. Agora, ao ler uma reportagem extensa que conte as peculiaridades do grupo, suas dificuldades, seus motivos, seus nomes, seus rostos e sonhos ao invés de números sem vida, é infinitamente mais provável que o leitor se comova e queira conhecer mais sobre a situação e quem sabe agir de alguma forma para fazer a diferença. Essa importância aumenta em tempos nos quais a maioria do que consumimos vem em pílulas de brevidade, que a informação precisa ser rápida e fácil, com a desculpa que não temos tempo a perder. Eu enxergo isso se desenvolvendo como um hábito nas pessoas: consumir o máximo de coisas no menor tempo possível, o que acaba sendo prejudicial para a construção de um senso crítico e uma conexão com o que se lê. As pessoas leem tragédias no café da manhã, comem seu pão na chapa e vão viver seus dias sem nem ao menos se abalar. O jornalismo literário nesse aspecto é uma bela ferramenta para resgatar a empatia das pessoas e não necessariamente apenas com notícias ruins, mas também com histórias inspiradoras, por exemplo. Além disso esse tipo de fazer jornalismo tem um enorme poder de contextualização. A partir daí pode-se revelar realidades e fatos que transcendem o caso em si, sendo, portanto, geopolíticas, históricas, épicas…

Glauco: Quando se fala literário a gente pode não apenas descrever os fatos, mas colocar um pouco de ficção?

Henrique: Por princípios éticos, não. O desafio do “tornar literário” é você passar suas impressões, seus pontos de vista, seus destaques, sem distorcer os fatos. Eu sempre vejo como se você fosse contar uma história, só que no caso ela é não fictícia. Ela inclusive pode ser comum muitas vezes, e daí o papel do autor é torná-la envolvente, mostrar sua relevância, contextualizá-la. Isso pode ser feito com qualquer situação, o desafio é criar uma narrativa que mostre sua importância para a sociedade como um todo. E isso é possível com qualquer fato, desde que se seja criativo e construa uma narrativa atraente e envolvente.

Glauco: Algumas sugestões de leitura de jornalismo literário?

Henrique: Os Sertões do Euclides da Cunha, é um exemplo atual, já que ele foi o homenageado da FLIP desse ano. Mas existem muitos bons autores: Janet Malcolm, João do Rio, Fernando Morais, Gay Talese, Roberto Saviano, Svetlana Alexijevich… Pessoalmente, meu trabalho favorito de jornalismo literário é A Sangue Frio, do Truman Capote – que é inclusive um grande clássico desse tipo de escrita.

Glauco: Na medida que você tem essa sensibilidade, o que você carrega daí para o seu trabalho como estudante de geografia e pesquisador. Em que lugar você leva esse gosto pelo jornalismo?

Henrique: A geografia tem toda uma parte que estuda o mundo natural e físico que é extremamente importante, mas essencialmente é uma ciência humana. A geografia estuda as conexões entre homem e Terra. Acredito que tudo o que envolve ser humano passa um pouco pela nossa subjetividade, portanto para entender geografia não basta saber dados brutos, mas também entender como esse mundo natural interfere e molda nossa sociedade. E aí que eu acho que tem uma relação, no sentido de trazer toda essa informação para uma leitura humanizadora. E para se fazer pesquisa em ciências humanas existe uma ferramenta que dialoga muito com o jornalismo: a história oral. Quando você estuda uma comunidade que não tem documentação de sua história, onde os conhecimentos são passados de geração em geração, a partir de ensinamentos, você precisa parar e conversar com as pessoas. Os indivíduos são fontes históricas vivas.

Ficar em casa

FICAR em casa FAZENDO O QUE E COMO ?  o início da conversa de hoje !

Atualmente o trabalho doméstico se mistura cada vez mais com a produção de renda, se torna EMERGENCIAL INVESTIGAR COMO vivemos e quais são nossas necessidades e vontades DO COTIDIANO e tudo que nos organiza  corporalmente.

QUAIS SÃO OS ENCONTROS inevitáveis do dia a dia ?

Somos seres gregários, sujeitos vivos que se associam com outros para viver, é inevitável pra a condição do vivo se relacionar para formar os próprios comportamentos de sobrevivência, não é diferente na atualidade em que a tecnologia digital nos distância dos encontros presenciais mas não alcançam todas as sensibilidades da nossa percepção; olfato, paladar, temperatura, texturas etc.

 QUANTO TEMPO ESTAREI em REDES SOCIAIS e DENTRO DE CASA ?

O Tempo lógico, este do relógio convencional nos conta que estaremos cada vez mais tempo dentro de casa, o relógio biológico sempre exigirá ações práticas de cuidados e cultivo e o tempo digital não tem limites porque é voraz por atenção. São diferentes modos de compor CORPO e DIÁLOGO nesta conversa sobre TEMPO e VIDA COTIDIANA, afirmações de singularidades, e não vamos perder de vista que o pensamento hegemônico, este que é ditado pelo consumo e acúmulo do capital tem horror ao singular e ao tempo do cultivo, desqualifica o trabalho manual e a artesania dos nossos hábitos.

QUAL A IMPORTÂNCIA DO FAZER SIMPLES ?

Não vamos confundir simples com simplório que em nossa língua portuguesa tem a mesma origem. Para nós aqui nesta CONVERSA a importância do SIMPLES está na ordem dos gestos assertivos, da clareza expressiva, daquilo que realmente comunica por que exclui os excessos, diminui volumes desnecessários.

E VOCÊ , C O M O   V O C É    F A Z   ?

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Brasileiros, o vai e vem da imigração

O Brasil, desde que foi colonizado por Portugal, tem sido o destino de milhões de imigrantes ao longo dos séculos. Das origens, credos, raças e idades mais diversas, esses homens e mulheres desembarcaram, no que hoje entendemos como um país, para através de uma complexa troca de culturas formar nossa sociedade. Somos um corpo social dono de literatura, música, história, tradições e povos únicos, que se combinaram para arquitetar, mesmo que inconscientemente, modos de viver pelas cidades deste território. Das movimentadas avenidas de centros urbanos até as mais isoladas tribos amazônicas, tudo contribui, de alguma forma, no que implica ser brasileiro.

Desse conjunto de pessoas que por conta da imigração, nasceram e tornaram-se cidadãos desta pátria, uma parte destes imigrantes voltaram para o país de origem, e outra  parte que não retornou a sua terra natal, tiveram filhos, netos e relações importantes à própria trajetória, desta forma mesclaram comportamentos, hábitos, vida cotidiana e valores na condição de estrangeiro. Encontraremos em seus testemunhos, modos de interagir, preservar seus costumes, sua gastronomia e memórias, de adaptar-se ao clima e a cultura. Trajetórias e comportamentos que nos interessa pela capacidade em aprender, tomar decisões, criar novos cursos de vida e condições para o bem-estar.

A partir de trocas e de conversas levamos em consideração as pequenas particularidades de cada cotidiano e como estas foram construídas. Se mudanças simples dentro do mesmo território podem causar impactos muito maiores do que podemos imaginar antes de vive-las, podemos ponderar se o impacto é  intensificado para quem passa a viver em terras estrangeiras.

Rotinas são importantes a nossa construção psíquica, ao modo como pensamos, sentimos e agimos para integrar-se e vincular-se com outras pessoas. A localidade geográfica também provoca mudanças em nossa percepção e sentimentos. Podemos até mesmo mudar nossas vontades, sobre qual rumo seguir, questionar verdades e revelar novos interesses, porque somos influenciados pelos ambientes e culturas da mesma maneira que também influenciamos.

O dia a dia das pessoas é construído pelo desenrolar de diferentes hábitos  individuais, coletivos e específicos por localidade, perpetuando ou não através das gerações. Cada país tem suas especificidades, o que torna o desafio de se viver em cada um deles uma aventura humana cheia de particularidades. A forma como nós, humanos, usamos cada ambiente pelos séculos fica marcada em sua geografia e consequentemente influencia quem a habita. É também o caso do momento histórico, dos regimes vigentes, da biota, do clima e entre outros tantos que seria inútil tentar enumerar todos, portanto nos ocupamos enquanto pesquisadores do comportamento com as particularidades, com os modos de fazer e se entender como parte integrada aos ambientes.

Nesta coluna, a pauta é buscar reflexão sobre como cada comportamento pode ser influenciado por essa conjunto de fatores históricos, sociais, políticos, geográficos e psicológicos. Como processamos por entre camadas também biológicas as formas de adaptação, as misturas e as anatomias de conexão com os ambientes e subjetividades inerentes a existência humana.

Mesclando com o estudo do comportamento referencias geográficas, históricas, culturais, com o jornalismo documental, o uso das imagens, da literatura e com as diferentes perguntas que chegam através deste site traçamos metas em busca de respostas e novas perguntas. Para começar: o que podemos aprender sobre nós mesmos e os outros ao pensar juntos cada uma destas camadas que nos constitui? Quais a influência de cada ponto geográfico de nosso planeta sobre quem vive nele? O que somos capazes de descobrir sobre o comportamento humano? E sobre nós, brasileiros? Estas perguntas estarão sempre abertas a participação de nossos leitores, através dos comentários, questões e testemunhos de quem vive no corpo diferentes histórias de imigração e de ser brasileiro em território estrangeiro.

Esta é uma coluna dedicada à maior compreensão do que está na origem dos nossos comportamentos enquanto sujeitos ativos e criativos, porque não nos basta respostas na lógica de causa e efeitos, mas sim os processos formativos, as dinâmicas vivas e singulares que trazem ao leitor subsídios para se entender cidadão no mundo e tomar atitudes comprometidas com redes de pertencimento e de acesso.

   Participe! Escreva para nós, compartilhe o que vive como brasileiro em qualquer lugar deste planeta.

 


CORRESPONDENTES

Henrique de Castro | Jornalista

Glauco Soto | Psicólogo  

Sheila Amarante | Psicóloga

vida diária

“Na casa onde uma criança nasce, todos os objetos mudam de sentido, começam a esperar dela uma tratamento ainda indeterminado, há algo mais ali; uma nova história, breve ou longa, acaba de ser fundada, um novo registro é aberto”

| Merleau Ponty. 1945

Desde uma simples tarefa da vida cotidiana há uma organização corporal envolvendo formas de pensar, de conhecer, de sentir e agir nele. Em cada ação temos possibilidades de renovar sentidos ou reproduzir os mesmos sentidos desvitalizados,

A casa, a rua, a cidade e o local de trabalho são ambientes de exploração e criação quando estamos atentos para encontrar um lugar de fala expressiva, vinculada à experiência sensível com a vida que se tem, com o corpo que cria ambientes.

Estar atento ao cotidiano que temos é investigar nele o protagonismo que exercemos como sujeitos de ações biológicas, sociais e políticas, são todas estas camadas que constituem nossos comportamentos e que estão modelando nossos corpos por meio de modos/estilos de vida. Está no modo como fazemos para se deslocar, para se alimentar, vincular-se e expressar-se no mundo uma prática diária de manejo dos afetos. Tomamos como exemplo uma simples caminhada até o mercado mais próximo, podemos fazer desta atividade um exercício de cansaço, atribuindo o esforço da caminhada até o mercado como uma experiência de obrigatoriedade sem sentido, uma tarefa imposta de fora para dentro, associar sensações físicas próprias a caminhada, como aumento de batimento cardíaco, calor, desconforto muscular e sede como efeitos de uma opressão, imposta pela obrigatoriedade. A mesma caminhada até o mercado com as mesmas sensações físicas podem ganhar novos sentidos quando quem caminha até o mercado investiga no próprio corpo os efeitos do caminhar enquanto olha a paisagem, as pessoas, as conversas e dinâmicas da cidade.

Ao atribuirmos palavras as experiências corporais, ao descrevermos nossas experiências enquanto andamos até o  mercado mais próximo estamos praticando potências.

Escolher palavras para descrever o vivido é uma prática corporal, façamos um exercício agora mesmo: escolha uma palavra que diga sobre sua própria experiência de caminhar até o mercado mais próximo, feito a escolha muitas outras conexões aparecerão com o uso das palavras, acompanhadas de sensações, uma memória corporal.

Essencialmente produzimos diferenças por meio de composições, combinando fragmentos do que colhemos ao longo de um percurso, seja ele curto ou longo.

Historicamente principalmente a partir da ciência moderna passamos a valorizar o tempo que cabe no relógio, orientamos nossa percepção, relações sociais e vínculos a partir de uma única lógica: uma espécie de encantamento por verdades únicas, acertar é chegar na hora certa, se comportar de maneira adequada a uma estética moral e normativa. Isso só nos fez cada vez mais aprisionados às sensações de inadequação e exclusão das relações, instituições e territórios de pertencimento.