Lavar as mãos e a roupa suja!

QUEM LAVA AS MÃOS ? E COMO ?

Nossos comportamentos são cultivados com dedicação diária, com muita atenção, e quando atribuímos sentidos a eles, exatamente como o cultivo de uma horta, primeiro estabelecemos uma relação de vital importância; passamos a nos alimentar dela e dedicamos cada vez mais tempo para aprimora-la, nossas mãos assimilam habilidades  junto com calos e ritmos próprios de fazer, movimentos corporais coreografando músculos, ideias e outras vidas. E quando os comportamentos de alerta e desconfiança ganham maior importância, como nos grandes centros urbanos em que a vida está sob ameaça boa parte do tempo, cultivamos comportamentos de ataque e defesa, repulsa e hostilidade.

Construímos coreografias – movimentação corporal – repetindo ações simples – o tira e põe casaco, o tira e põe sapatos, o tira e põe máscaras (em todos os sentidos), o lava e suja louças, o lava e estende roupas, um imenso faz e desfaz coisas cotidianas que vão desenhando no CORPO um modo de estar nos ambientes -anatomias de adaptação –  o MODO COMO as pessoas estão vivendo. São olhos arregalados de medo, peitos encolhidos de sofrimento, cabeças erguidas de otimismo, pisadas firmes de confiança ou “pisar em ovos” pra não serem percebidas, uma infinidade de comportamentos de composição e adaptação, porque somos assim, CORPOS com uma capacidade interminável de modelar a si próprios para se adaptar as demandas de convivência social.

Sobre esta modelagem farei um outro post.

Agora é importante voltar atenção para a louça !

A louça que está na mesa chegará até a pia porque alguém se ocupará de fazer o deslocamento destes objetos. Pode ser de uma maneira arrastada com todo peso da obrigação, ou com a velocidade necessária para se livrar logo desta atividade, ou com gestos curtos e com “mão quebrada“, ou  com a elegância de quem monta uma instalação artística, ou com a destreza do equilibrista que se diverte entre os equilíbrios improváveis, ou com nenhum cuidado pessoal porque em algum momento alguém chegará para nos salvar da louça.

Se até aqui eu tenha conseguido atrair sua atenção para o COMO cuidamos da louça ou de qualquer outra atividade simples do cotidiano, todas elas mais importantes que a própria louça, é porque ficou clara a ideia de que dançamos em torno dos objetos, mobílias, paredes, obstáculos e pessoas a nossa volta; de que estabelecemos coreografias adaptativas e assim modelamos os CORPOS, mais ou menos alegres, mais ou menos presentes, mais ou menos contrariados e vítimas dos esforços domésticos.

QUEM LAVA A ROUPA SUJA ?

Lavar a roupa suja é uma expressão bem comum entre nós brasileiros quando nos referimos aos diálogos com atrito dentro de nossas casas e nas relações pessoais com alguma convivência e intimidade. E para que serve ? E para quem Serve ?

Serve para limpar o que ficou sujo pelo uso, porque sujar as roupas é inevitável para nós “humanos sapiens“. Elas são utilidades e também são adereços para as nossas coreografias. Usamos e trocamos de roupas COMO preparação para cada próxima atividade, lava-las pode ser justamente a relação de preparo, ou mais uma vez, um acúmulo de tarefas sem sentido algum, apenas obrigatórias, enfadonhas e desnecessárias.

Porém não conseguimos levar a vida pelados, será necessário vestir, usar e prepara-las para usar novamente, escolhendo COMO queremos fazer esta operação que se repete todos os dias, realiza-la tal como fazem os samurais que ritualizam o ato de vestir sempre como se fosse a última vez, ou tal como faz o cirurgião antes de operar, de maneira asséptica e disciplinada, ou como o mergulhador com roupas seguras e desconfortáveis, ou como a bailarina com poucos panos leves, ou ostentando excessos de símbolos e marcas carregadas de status.

Espero ter conquistado sua atenção para a importância do COMO “lavar a roupa suja“, vestir-se de sentidos pessoais, de cuidados com a presença nos encontros, de preparar-se para a natureza dos ambientes, com seus climas, relevos e culturas. Lavar não apenas para se livrar do sujo, indesejado ou contagioso, mas recuperar o gosto pelo cuidado,  pelo capricho, pelo enfeitar-se e sem tanta repulsa de sujar as mãos com a vida que se tem e com a própria sujeira.

Sendo inevitável a “lavação de roupa suja” por ser desejável recomeçar sem a sujeira do dia anterior, temos que reservar tempo para isso e não atribuir para outras pessoas o cuidado que se refere a nossa própria organização. Ressignificar como privilégio, dedicar tempo trabalhando sobre os objetos marcados por nossa vivência. Investigar em nossos próprios hábitos os modos como estamos vivendo, produzindo e queimando energia, o quanto consumimos, acumulamos e criamos objetos e subjetividades na vida cotidiana.

ENTRE AS QUATRO PAREDES

E não são apenas os hábitos cotidianos que modelam nossos CORPOS, e não apenas as práticas e disciplinas organizam nossos COMPORTAMENTOS. Existem diálogos entre as quatro paredes envolvendo no mínimo duas pessoas em uma conversa – e novamente afirmo o que já escrevi anteriormente – como humanos sapiens precisamos contar para outras pessoas “O QUE” e “COMO” estamos vivendo.

É assim que nos desenvolvemos desde criança, usamos da presença das outras pessoas para testar nossos comportamentos, aferir a eficiência deles, o alcance das nossas habilidades, o que provocamos, o que já sabemos e o que ainda precisa de mais ensaios: qual o tom de voz usamos, a qualidade dos gestos, qual coreografia intensifica nossas emoções ou as enfraquece. Nos aperfeiçoamos nos encontros, lavar a roupa suja em casa é privilégio de ensaiar coreografias acompanhados, aumentar nossas habilidades de conviver e colaborar com os ambientes.

O diálogo na intimidade da casa e sobre as coisas simples da vida cotidiana, por exemplo, quem lava louça hoje ou quem acompanha a lição de casa das crianças são ricas oportunidades para entender o que fazemos e como fazemos os acordos de convivência, como exercitamos poder e vulnerabilidade, como praticamos o direito ao contraditório, como favorecemos a liberdade de expressão e como encontramos saídas coletivas para problemas comuns. Temas atuais da vida em sociedade, que tem neste lugar íntimo e privado a construção dos primeiros sentidos, dos primeiros vínculos e valores que sustentam um modo de estar na vida.

Repetidas vezes neste post chamei sua atenção para os MODOS, para os COMOS fazemos desde as coisas simples até as tarefas de maior complexidade. Chamei atenção para a importância de se ver fazendo e atribuindo sentidos aos próprios comportamentos. Acredito que conhecemos melhor a natureza dos nossos comportamentos observando suas funções no processo de desenvolvimento, aumentando complexidades e capacidade de conexão.

Chamei sua atenção para aquilo que nos torna fluentes e habilidosos no manejo da vida cotidiana; olhar para os COMO’s e fazer com as próprias mãos.

A conta não fecha

QUANTO É O MÍNIMO

Atualmente, em diferentes países estudam-se formas de implantação de uma renda mínima individual, se tornou insustentável a desigualdade social nesta engrenagem agressiva e segregacionista que chamamos de capitalismo neoliberal, porém o mínimo em dinheiro não reflete ou não deveria refletir o desejo de abundância que todos continuaremos a ter. Que bom que seja assim, pois “não queremos só comida, também queremos diversão e arte” como bem disse a banda, Titãs no final da década de oitenta em terras brasileiras.

É necessário um debate qualificado sobre os critérios e a construção da renda mínima, que ofereça condições de acesso e consumo. E que sejam feitas perguntas o mais breve possível antes que as narrativas tendenciosas sobre o tema tomem toda nossa atenção. 

Neste “blog” cabem as provocações de alguns temas, cabe acolher mobilizações individuais, sensibilizar o leitor sobre a dimensão do nosso tamanho e dos nossos comportamentos em diferentes territórios.

Compreendo que o mínimo é garantir a liberdade criativa e a eficiência dos comportamentos de conexão com a vida.

Então – COMO DE COSTUME – vamos em busca de exemplos que ilustrem nossas conversas por aqui, ao perguntarmos para uma criança como ela quer viver, possivelmente teríamos uma resposta simples: quero viver bem, ou quero viver com ALEGRIA, ou quero viver brincando! Um exemplo simples de que o mínimo é viver em um estado de bem-estar, ocupado daquilo que nos alegra e, bem sabemos, uma criança brincando está integralmente envolvida com seu corpo, seus desafios e aprendizagens, não há preguiça, não há sedentarismo.

Por se tratar de uma criança, respondendo a uma pergunta de maneira tão eficiente e com domínio lógico sobre aquilo que a fortalece, nos faz sorrir e por alguns instantes acessarmos esse estado de ALEGRIA, porque temos a memória de viver desta maneira, já fomos crianças e sabemos “COMO É” e o quanto fomos convencidos do contrário em algum grau, se não estivermos totalmente ressentidos.

Vamos usar este exemplo sempre que tentarmos entender O QUE É e,COMO É, o estado de produção e investigação sobre quem somos, a natureza dos nossos comportamentos e quais escolhas nos fortalecem.

Sabemos o quanto somos capazes de se envolver em algumas atividades de maneira tão interessada quanto as crianças e o quanto é grande nossa vontade de se alegrar,porque somos ávidos por trabalhar e criar saídas para problemas comuns da vida cotidiana e, somos ainda mais ávidos por práticas eficientes e não apenas utilitárias.

Outro bom exemplo para ilustrar a abundância de nossos desejos e a eficiência natural de um CORPO ALEGRE é a prática da DANÇA, uma arte que nos torna habilidosos consigo, com os próprios recursos de criar graça e coreografar comportamentos e retirar-se do enfado das atividades rotineiras. Quanto mais dançamos ampliamos competências de nossa natureza humana, a de se alegrar, pensar, criar e produzir em abundância, diferentes expressões corporais, fazer graça e traquinagens com os gestos e os movimentos físicos. Somos exuberantes, não paramos de produzir diversidade e contraditórios.

QUANTO É ABUNDANTE?

Abundante é uma quantidade muito superior ao mínimo e que não faz desperdício porque tudo se aproveita, e diferentemente da lógica capitalista que precisa gerar a falta,criar objetos e demandas de consumo, vender o produto final, oferecer coisas mastigadas para manter corpos sedentários de produção e distantes do que podem, aqui a conversa é sobre abundância mesmo, aquilo que não acaba.

Comparo estados de abundância com o estado da criança brincando que se alegra com suas próprias perguntas e seu imaginário, comparo também a abundância com o corpo dançando que se entende pensando e criando como ações complementares de infinitas possibilidades.

Também compreendo abundância, como a sabedoria dos permacultores que entendem que após semear, plantar, crescer, colher e comer, precisam se ocupar do reaproveitamento das sobras, trocar com a vizinhança sua produção, suas aprendizagens e histórias sobre o que viveram durante o cultivo.

Faço essas duas ilustrações, a da criança brincando e da pessoa dançando, porque me interessa – como sempre, em todos os “posts” neste “blog” – provocar atenção para os modos – COMO FAZEMOS TUDO E QUALQUER COISA – porque assim podemos entender a natureza dos nossos comportamentos, a permanente transformação e COMO agregar valores, significados e inteligências colaborativas em nossas redes.

Colaborar é uma inteligência! 

Há um dado importante para esta afirmação: durante 2,5 milhões de anos, os humanos se alimentavam coletando plantas e caçavam animais que viviam e procriavam sem qualquer intervenção humana, uma estratégia coletiva de se deslocar em grupo, investigar e multiplicar conhecimento e esforços corporais sem nenhuma chance para o sedentarismo. 

E pelo longo período que este modo de vida esteve neste planeta nos permite supor a eficiência destes comportamentos, supor um alto grau de motivação necessária de permanecer em movimentação e não acumular nada, fazer reservas só daquilo que se consegue carregar, não tratar em cativeiro particular os animais, pessoas e objetos,fechando e abrindo ciclos conectados com estações climáticas na aventura de estarem vivos. 

É preciso tempo em abundância para entender os ciclos da natureza e mais tempo ainda para nos educarmos sobre a finitude das coisas, o que é indispensável aos recomeços, “ter que morrer pra germinar” como bem cantou Gilberto Gil no começo da década de oitenta, também em terras brasileiras. 

Acelerar o tempo como propõe alguns, dizendo que tempo é dinheiro, é perder-se da potência que há em cada uma das vivências e para melhor aproveita-las é preciso desacelerar, são muitos os tempos necessários para criar vida neste planeta e nem todos conseguiremos medir, também não há como medir o tamanho da vida das pessoas, talvez a ALEGRIA possa ser uma boa sugestão. 

Sua conta fecha? Te sobra tempo? Você já dançou hoje?

À FLOR DA PELE

 Fragmentos de correspondências entre eu Glauco e Nide, pedagoga e plantadora de orgânicos, que aceitou escrever e publicar um recorte de nossas conversas e investigações sobre os ESTADOS SENSÍVEIS VIVIDOS NO CORPO, em especial neste momento diante à situação de isolamento social e pandemia, uma conversa despretensiosa, mas com muita vontade de acolher e entender os estados do corpo que ainda não conseguimos descrever  que portanto temos pouca ou quase nenhum domínio sobre eles. Apenas a certeza que o mundo não voltará a ser o mesmo.

Durante a escrita deste texto, aos poucos percebemos que estados de pouca fluência não são necessariamente estados de fraqueza, mas brechas para aprofundar o que vivemos e sentimos.  Durante o processo entre leituras, rascunhos, mensagens, intervalos e retomadas descobrimos que este seria um texto de diálogos sobre o cansaço, o atropelo cotidiano, o ESTADO À FLOR DA PELE, sobre nossa vontade de encontrar nas palavras as alianças para se viver em grupo e em estado de amizade, ferramentas para compartilhar modos de viver, de expressar COMO estamos vivendo com o objetivo de multiplicar as performances cada vez mais vinculados com a vida e menos submetidos ao mundo corporativo e pobre de sentidos. Fizemos uso de alguns conceitos de maneira que nos permitiu olhar para a natureza dos nossos comportamentos e como vemos todas as coisas vivas neste planeta, estados adaptativos de formação continuada do corpo e de sensibilidades, de nossa enorme capacidade criativa metabólica de processar ambientes e de nossa incansável vontade de composição e colaboração coletiva nos ambientes de pertencimento.

O que é ESTAR A FLOR DA PELE?

Na extremidade do corpo está pele, o nosso maior órgão é uma linha entre ambiente interno e o externo, é matéria viva feita das relações com a temperatura, com texturas, arrepios e porosidades. É o registro vivo dos encontros, é a anatomia do “entre” é uma borda porosa e elástica que desenha singularidades, individualidades e memórias dos acontecimentos”

Glauco:

A flor é o órgão reprodutivo das plantas a função primordial das flores é reproduzir ainda mais vida, se fazendo entre as cores e formas novas composições; com abelhas, pássaros e um enorme número de outros animais, em especial nós humanos.

Acredito que as flores são belos comportamentos de afirmação da vida em sua diversidade de composições, estão entre bichos e plantas criando ambiente de sensibilidades, produzem e multiplicam sensações, cores e excitações, servem reinos de diferentes naturezas porque produzem através de cores e formas exuberantes, sentimentos de diferentes ordens; são atraentes, cheirosas e provocam apetite e muitas vezes escandalizam olhares de pudor.

Minha já falecida avó gostava muito de flores escandalosas, desta que enchem a casa de alegria, cheiro e abelhas, dedicou sua vida à imitar a potência delas, plantando ou confeccionando artesanalmente com tecido engomado. Ainda sinto o gosto e cheiro bom do seu quintal, ainda posso ver seu sorriso atraente e sedutor, casou-se sete ou oito vezes, não me lembro ao certo, mas sei que todas as vezes foi de maneira apaixonada e feliz com um novo encontro. Penso que minha avó viveu como as flores vivem; excitada com os bons encontros, aqueles que se animam com o arrepio que dá na pele.

Creio que estamos neste mesmo momento de composição diante da pandemia e que precisamos de outras formas e sensibilidades para continuarmos vivos, não basta reproduzir, teremos que inventar novas formas e comportamentos e para isso será necessário observar como fazem todas as coisas que se afirmam por sua capacidade de compor, imitar e de se diferenciar. Nosso cansaço é do igual e do impotente diante a vida, são hábitos, estéticas, modos de viver e se relacionar que já cansou toda nossa beleza. 

Entendo ser urgente aprendermos com os CORPOS e COREOGRAFIAS femininas, tal como a das flores, afirmar nossos comportamentos por sua capacidade de conduzir afetos, fazer dobras sobre si, gerar mundos e diálogos mais generosos conosco e com os ambientes. É assim que penso sobre as flores; são como corpos femininos e com capacidade de multiplicar o que realmente afirma a vida nesse planeta.

Paul Valéry um poeta e professor francês afirma que “o mais profundo é a pele” é o que alcança a profundidade de sentidos e em permanente relação com o fora e com outros corpos na mesma condição.

Para mim, estar “a flor da pele” é estar presente nesta linha tênue em que tudo pode acontecer sem o controle racional dos sentidos, é estar próximo do choro, do sorriso e das paixões, é estar no risco de acontecer em função dos sentidos da vida em nosso CORPO, ser passagem e não retensão, ser acontecimento e não projeção idealizada, criação e não crença, estar vivo e vivendo no presente dos acontecimentos.

Estar à flor da pele é uma expressão assertiva pra descrever estados de intensa sensibilidade com as coisas a nossa volta, com o aumento de porosidade nas relações, com o toque, com o que nos esbarra ou com que ela absorve.

Nide:

Entendo a pele como uma película protetora dos nervos,carne, músculo e vestimenta da alma, tem poderosa tecnologias de sensores que ninguém do mundo das invenções tecnológicas ainda conseguiu igualar,esses sensores mantém o sistema em alerta e e em equilíbrio, caso algo errado internamente ocorre,  envia avisos, como por exemplo a febre para sua pele, ou também se externamente houver perigo, exemplo são as sensações térmicas: frio= arrepio,hipotermia e mal-estar, poucas pessoas conseguem dormir “com pé frio”
calor= suor,fadiga hipertemia. Regular= conforto térmico e conseguimos relaxamento corporal. 

 O poeta português Luís Vaz de Camões
em seu Soneto diz “o amor é o fogo que arde sem queimar” esse fogo é uma confusão sistemica que gera um calor inexplicável que arde e enrubesce a pele, nesse caso o calor da paixão é um sentimento à Flor da Pele.

Assim como nossa pele tem muitas camadas,  a flor também é cheia de delicados detalhes em seu processo de transição, até surgir às pétalas para ser admirada e amada a flor alegra os olhares e enternece os corações. Todas essas camadas estão intrinsecamente ligadas,assim como a pele e a flor  nossa vida tem minuciosas camadas que devemos nos atentar nos processos e dinâmicas da vida, pois temos que ser generosos conosco e suavizar ao externar os nossos  sentimentos, quando mostrarmos nossas emoções, nossos medos mais íntimos, nossa raiva mais potente, nossas dores e alegrias, as esperanças, as incertezas,os nossos POR QUES, os nossos QUANDOS e o nossos COMOS.

Vivemos tempos líquidos  e muitas  vivencias intensas no mesmo período. Há ocasiões que  a falta de empatia ou a indiferença com a vida que ofendem e  acirram ânimos e não nos permitem uma aproximação para acertos com cordialidade. Também temos que aprender a lidar com empatia as questões das outras pessoas e esses tempos vividos atualmente, facilitam o estresse com as dúvidas do que será o amanhã? 

Pode ser que esse período seja a “do por quê” das invenções, de significar e resignificar A VIDA,pois  Sentimos na pele diariamente as asperezas e parece que temos que ter muitas camadas de pele ou colar e recolar constantemente para sobreviver as incoerências e incertezas,  porque o mundo estar à flor da pele.
“Somos feitos de carne, Mas temos que viver como se fôssemos de Ferro” Sigmund Freud.

Japão para uma brasileira

O clássico filme Era Uma Vez Em Tóquio, de 1953, começa com uma série de imagens da capital japonesa. Crianças andam pelas calçadas com seus bonés e mochilas rumo à escola, pequenas casas em uma colina revelam as destrezas em carpintaria dos habitantes do país – muitos detalhes em madeiras e simpáticos telhados com sutis curvaturas. Um trem passa desapressado entre os quarteirões e balança algumas roupas penduradas em um varal ao lado do trilho. As folhas das árvores de galhos retorcidos provêm alguma sombra enquanto senhores com tradicionais quimonos se sentam ao chão e folheiam um livro. O interior das casas é repleto de divisórias de madeira e pequenos artesanatos pendurados nos cantos. Esse era o Japão que povoava a cabeça de Sheila durante sua infância em São Paulo. O país do sol nascente sempre foi imaginado por ela como as cenas dos antigos filmes japoneses, que retratavam a vida cotidiana e quase interiorana – para uma criança acostumada com a imensidão da capital paulistana- de seu povo.

A curiosidade em conhecer o Japão foi crescendo e se tornou realidade quase que por acaso, quando Sheila teve a oportunidade de fazer as malas e atravessar o mundo para viver em Osaka para ministrar aulas de dança no país. Ao desembarcar no Aeroporto de Kansai, em Osaka, o país que ela encontrou era muito mais próximo da abertura de um filme hollywoodiano mostrando a imensidão de Nova Iorque. Uma variedade de luzes das mais diferentes cores, tecnologias futurísticas, um fluxo intenso de pessoas e um mar de prédios para nenhum paulistano colocar defeito denunciavam que o país já não era o mesmo do começo do século.

A surpresa foi grande. Um local novo, diferente do que ela imaginava, com um povo que falava outra língua e até mesmo um novo alfabeto. Sheila mergulhou em um mundo quase que alheio ao que ela estava acostumada a viver, no bairro do Ipiranga. A sensação de estar em território estrangeiro entretanto , não era apenas uma montanha russa de emoções rápida que duraria algumas semanas e resultaria em uma mala cheia de souvenires despachada de volta rumo aeroporto de Guarulhos. O Japão seria a partir daquele dia sua nova casa, onde ela desenvolveria seu novo cotidiano, seus novos hábitos, onde ela conheceria o seu novo supermercado do bairro e as novas esquinas as quais ela dobraria diariamente.

No começo Sheila não falava nada do idioma,porém era auxiliada por Maria, que a havia contratado para o trabalho. Vivia com um grupo de brasileiros e tinha a ajuda de sua contratante, também vinda de terras tupiniquins, para resolver assuntos burocráticos do trabalho, de documentação e relativos a residência. Hoje as coisas mudaram. Sheila construiu aos poucos sua vida no novo país. Hoje mora em seu próprio apartamento, ministra as aulas de dança por conta própria em algumas academias em Osaka e vive de maneira mais independente e integrada a cultura que a acolheu e que hoje é parte importante de sua experiência de vida, como uma mulher brasileira negra vivendo em uma sociedade diametralmente oposta daquela em que nasceu.

Aprendeu a se comunicar na nova língua e descobriu novos modos de se viver no planeta. Desde os pequenos detalhes como a despreocupação dos japoneses em deixar as sacolas de compras no cesto da bicicleta encostada na calçada, sem nenhum vigia, até os diferentes modos deles de se relacionarem, suas personalidades distintas, moldadas por hábitos e ideologias locais. Durante os anos se adaptou à nova vida e construiu também seu próprio ser e estar em Osaka, provenientes de sua vivência como brasileira por lá. Treze anos depois e mais confortável no país ,Sheila reflete sobre a maneira como a vida anda na Ásia, e como isso impactou sua própria maneira de interagir e se construir como um ser individual e coletivo no Japão.

– Quando chegou ao Japão, o que te chamou a atenção logo de início?

Nos primeiros dois ou três dias eu tive uma sensação familiar de estar em casa. Me senti no bairro da Liberdade em São Paulo, era como se tivesse transportado um local para o outro. Estava com o imaginário do Japão antigo, simples, em tons de marrom envelhecido na cabeça, que na hora que cheguei deu lugar a um brilho moderno. Assim como no bairro paulistano, havia tumulto, comércio, restaurantes… e eu também já estava familiarizada a conviver com pessoas orientais e sua cultura. O que me surpreendeu mesmo foi encontrar toda essa vida moderna. O local que morava em Osaka ajudava na sensação: era o centro do centro, havia muito burburinho e barulho de dia e noite. Muitos bares, vida noturna pulsante. Quando cheguei era maio, ou seja, primavera. Havia muito sol, o que fazia com que também tivessem muitas pessoas na rua de dia. A maior mudança do meu cotidiano, foi como eu usava o transporte público, já que por aqui quase não tem ônibus. Perto de casa me locomovia de bicicleta. Era um grande trânsito de bicicletas, um verdadeiro fluxo com as próprias regras. No início foi difícil me habituar. Era muito diferente do Brasil, onde há um certo caos de pessoas se trombando e esbarrando. Por aqui tudo tem uma ordem perfeita. Para ir até os lugares mais distantes os trens resolvem o problema, são extremamente pontuais e organizados, mas a bicicleta ainda é mais prática. Ainda hoje faço tudo de bike. É bom que isso também me deixa ver a paisagem, me deslocar com calma, sem o estresse de São Paulo.

– Como foi conciliar seus hábitos ocidentais com os dos japoneses?

Uma coisa que é um desafio até hoje nesse choque de hábitos é a questão do horário. Eu sempre fui de chegar um pouco atrasada nos lugares. O problema é que no Japão a pontualidade é muito valorizada. No início, minha chefe brasileira, deixava claro que essa característica não existia por aqui. O horário é algo extremamente rígido. Há até mesmo um protocolo de chegar meia hora antes dos compromissos. Ela até entendia a situação e tolerava pequenos atrasos, mas quando entrei em contato direto com os japoneses percebi o quanto tudo isso é levado a sério. O contato entre chefe e funcionário é bem diferente aqui, no meu caso não me diziam diretamente quando ficavam incomodados com atrasos, por exemplo, era alguém que vinha me falar. Nessas situações senti que eles parecem não saber lidar muito bem com estrangeiros, sendo inclusive mais rígidos com os próprios japoneses. Houve um feriado que não fui dar aula, por exemplo, pois não sabia como funcionava os feriados locais. Isso deixou minha chefe bem brava. Outro desafio é a língua. Eu me saio até que bem nisso por ser bastante comunicativa, não ter vergonha de perguntar as coisas, mas o complicado é quando alguém te interpreta errado por algum motivo. Os japoneses, porém, sempre foram pacientes nisso, elogiam minha pronúncia e esforço em aprender o idioma. Percebi que isso tem mais a ver comigo por não ter ascendência oriental. Os brasileiros filhos de japoneses, por outro lado, são constantemente cobrados a falar bem o japonês e se adequar aos hábitos. Algo diferente disso é considerado inadmissível. Essa cobrança mais leve por um lado é boa para se adaptar aos poucos, mas gosto de sair da zona de conforto também, o que te força a se virar.

– No começo da sua vida em Osaka você morou com brasileiros. Quais os impactos que você sentiu quando foi morar sozinha?

Morei com um grupo de brasileiros no primeiro trabalho, aí cada um tomou um rumo quando tudo acabou. Eu acabei indo morar com uma bailarina que trabalhava comigo, a Cláudia, o marido e as filhas. Eles eram brasileiros, mas já estavam por aqui fazia anos. Falavam bem o idioma e me ajudavam muito nisso e também a resolver assuntos burocráticos e de documentos. Eles praticamente me adotaram. Quando eles se mudaram fiquei desesperada pensando para onde iria. Acabei me mudando por intermédio de uma japonesa que me ofereceu trabalho em Centros Culturais .Ela me apresentou a vários locais legais na cidade ,e também aquele que acabaria se tornando meu apartamento. Todo esse processo me ajudou a ir me assentando com calma no Japão até buscar a independência de morar sozinha. Nos primeiros dias houve um certo medo de ficar sozinha, sentir que agora era eu por mim mesma e não mais rodeada de pessoas. Uma amiga morava perto, ia jantar na casa dela de vez em quando… isso ajudou. Surgiram alguns desafios, uma maior responsabilidade de pagar todas as contas sozinha, mas eu já buscava essa independência, ir no mercado, lembrar as coisas que as pessoas me ensinavam para resolver as questões do dia a dia. Tive todo esse processo de aprendizado com muita gente, que me ajudou desde que cheguei, por isso sou muito grata. Mas com certeza no momento que aconteceu de eu ir morar sozinha houve aquele impacto: agora ou eu cresço ou eu cresço.

– Você considera o Japão sua casa hoje?

Tive uma educação muito rígida. Por isso sempre me preocupei em não ser mal interpretada morando com os brasileiros, principalmente com as crianças. Tinha muita cerimônia. Quando mudei para o meu apartamento depois de tanto tempo aqui, percebi uma demora para me sentir a vontade até para colocar os pés no sofá da minha casa, por exemplo. Reconhecer o local que eu estou como minha casa demorou bastante. Tudo era provisório antes e isso de certa forma continuou. Eu nunca montei meu apartamento com a minha personalidade, com minha mobília, as coisas que eu queria. Até hoje existe, portanto, essa espécie de distância, da falta de se sentir completamente à vontade. Eu estou completamente adaptada ao Japão, mas mesmo assim ainda não vejo o país como minha casa.

– Como você percebeu a experiencia do japonês ao conviver com você como estrangeira?

No começo me abordavam na rua e pediam para tirar foto, tocar minhas tranças, minha pele, era um assédio mesmo. Eles pareciam ficar felizes em me ver, perguntavam de onde eu era, elogiavam meus dentes e o fato dos meus olhos serem grandes. Eu senti até um certo endeusamento. Eles me achavam descolada.Eu percebia isso desde os primeiros dias. Com os anos e’ verdade que houve alguma mudança,já que se tornou mais comum estrangeiros por aqui .Mas isso nunca chegou a me incomodar. Eu achava engraçado e diferente o fato de eles me olharem daquele jeito e me considerarem tão curiosa e interessante.

– Como é sua relação com os espaços públicos?

Eu estudei em escola pública, lá éramos sempre orientados a participar de tudo o que a cidade nos oferecia, como bibliotecas públicas, parques e museus. Sempre fiz muita coisa a pé também. Meu pai levava eu e meus irmãos ao Ibirapuera aos finais de semana. A partir disso me habituei a utilizar o espaço público e participar de eventos e atividades como shows no Anhangabaú. Em São Paulo adorava fazer as coisas sozinha, ir à Vila Madalena escutar música ao vivo. Sinto falta de tudo isso. Aqui tem sim bares e discos, mas o ritmo é diferente, o brasileiro parece ter uma energia especial. Aqui as vezes vou ao cinema, mas o idioma é um impedimento. Também já fui a uma peça de teatro tradicional japonês. Eu participo de um grupo budista, vou a parques e museus com amigos as vezes, mas sinto falta da vida cultural de São Paulo. Não apenas da cultural, como da gastronômica: você pode comer pratos de todos os lugares do mundo. Aqui até tem, mas eles são adaptados para o gosto do japones, a comida é mais adocicada, cheiros e sabores fortes não fazem sucesso.

– Como você cuida da sua saúde mental?

Eu adotei algumas características e normas japonesas que me fazem bem. Aqui é tudo tão organizado e ajeitado. É uma engrenagem que as vezes pode ser meio rígida, portanto procuro ser fluída também. Sou sempre muito grata ao lugar que me recebeu, acho que aceitar onde estou é importante para viver bem e isso não importa onde seja. Sempre procuro ver mais os benefícios do que os malefícios e aprender algo novo a cada dia com as pessoas. Isso tudo me encanta e contribuí para que eu me sinta bem. Algumas atitudes culturais eu não entendo ou não concordo, por exemplo algumas questões humanas, mas venho aceitando que eles são desse jeito e tem que ir mudando no tempo deles. Eu aproveito o que o país oferece, sem ultrapassar os limites deles e sempre que posso procuro acrescentar algo positivo com minha visão diferente. Por ser um país de primeiro mundo, ajuda também fatores como a sensação de segurança e a saúde pública. Existem muitos desafios em estar em uma cultura tão diferente, mas não é impedimento.Com o passar do tempo, ao ser bem recebida nos lugares, ver o trabalho caminhar, surge um sentimento de satisfação, aumenta-se a autoestima e isso faz com que eu me sinta mais segura.

– Quais as principais diferenças ao viver no Brasil e no Japão?

Eu não voltei a morar no Brasil, então não sei direito como vejo e percebo as diferenças de hoje em dia.O que eu sei é que no Japão eu percebi o como temos melhores oportunidades. Independentemente da classe social as pessoas têm as mesmas oportunidades, elas tomam o trem juntas, por exemplo. O japonês é um povo mais humilde. Além disso o retorno financeiro vem muito mais rápido aqui. Vejo ainda uma aceitação maior dos japoneses com diferentes hábitos de vestimenta, de usar o cabelo… Uma coisa que me surpreendeu é que vejo o Japão como um país quase nada racista. Eles têm um pouco de nacionalismo, entretanto, há sim certo preconceito com o estrangeiro em algumas oportunidades. Porém eu nunca me senti humilhada ou acuada aqui, sempre fui respeitada.

– Como você se sente morando aí?

Desde que cheguei amo morar aqui. Adoro a segurança, a paz de andar nas ruas, a comida, as pessoas, a sensação de ser bem recebida, a tranquilidade tão distante do caos brasileiro… Ainda hoje sinto isso. A diferença nos dias atuais é que me sinto preparada para partir. Acho que posso aprender mais, tenho vontade de ir para outro lugar passar por novos desafios. Não parei de gostar, mas já me sinto bem alimentada no Japão.


 

Sheila Amarante, psicóloga e bailarina desde sempre

Texto e entrevista:

Henrique Castro | jornalista

enredando

enredando histórias por correspondência mundo a fora!

|   enredando

Este é o primeiro post deste blog mas durante um ano e algum tempo ele ficou aguardando ser publicado na pasta de rascunhos enquanto outros posts foram publicados e a única parte deste que permanece igual desde o primeiro dia é o título e a foto. Tal como fragmentos de um processo que não se reduz aos resultados, porque pretende compartilhar os percursos, os modos de trabalho, a vida cotidiana para que então contamine por conexões e vínculos que tratem dos afetos como a matéria prima para o trabalho diário em que o tempo não se mede no relógio.

Parti do entendimento que as redes humanas são vivas quando são quentes e úmidas, quando são capazes de sustentar vida com autonomia e tal como nossos corpos são organismos vivos em permanente expansão e contração sobre si e sobre os ambientes que é parte. Então o primeiro passo para este blog era concebe-lo como parte do próprio  processo de concepção entre pessoas em diferentes locais, cidades, países, territórios de trabalho e produção e que se corresponder em confiança investigando a natureza dos nossos próprios comportamentos amplia o alcance do que podemos em nossa vida diária.

Fiz uso das minhas correspondências quase que diárias com amigas que já não estão no Brasil por uma clara redução de oportunidades que em nosso país historicamente persiste e que distrata principalmente as mulheres. Enquanto profissional psicólogo entendo o que é uma profissão praticamente mantida e aperfeiçoada por uma maioria de mulheres diante uma cultura estruturalmente machista e escravagista e o que temos de avanço em diferentes sentidos vem do esforço de mulheres guerreiras de diferentes épocas, tal como estamos vivendo atualmente no Brasil diante um estado que é fruto de um golpe à uma presidenta.

Agora já posso falar da foto!  Veio como uma correspondência entre tantas outras em que minha amiga e colega de profissão Elaine narrava os desafios como mulher, psicóloga, mãe de duas crianças, casada com um médico alemão, morando em Berlim após um longo e rico trabalho de saúde mental nos “médicos sem fronteiras”, conhecendo diferentes realidades pelas quais minha amiga esteve e está exposta, pude entender sua condição de cidadã do mundo, mãe em duas culturas, mulher neste planeta e profissional psicóloga.

Elaine me retratou através de nossas correspondências um olhar para o futuro que se mostrava cada vez mais continuo pelos trajetos desde sua partida para a Africa em 1997, como brasileira, imigrante e sendo parte de uma  família binacional, suas inquietações e desafios não estavam só no território brasileiro, mas nas pontes de conexão cultural, nas fronteiras do pensamento em que se faz necessário criar palavras, gestos e posturas para se viver com saúde em todos os sentidos.

Conversávamos sobre o esforço como profissional psicóloga e mãe não cabendo numa mesma agenda, todas as atividades responsáveis e felizes com a educação dos filhos demandando todo o tempo cotidiano e cada vez mais as tecnologias digitais; imagem, voz, gravações e comunicação ao vivo tornando-se indispensáveis neste percurso já pós moderno mas em que as mulheres ainda são as únicas responsáveis por toda gestão da vida doméstica e educação familiar.

Passamos então por um período de dois anos nos correspondendo quase que diariamente, algumas conversas gravadas, outras não, fotos, textos nossos ou de outras pessoas e sempre acolhendo nossa própria inquietude com o uso destes dispositivos de tecnologia em relação ao trabalho clínico, em saúde mental e aconselhamento psicológico em que o trabalho de escuta está associado a qualidade dos vínculos, à clareza dos acordos e a qualidade dos encontros que abrem fluxo/passagem para afetos e liberdade para expressar.

Durante dois anos praticamos ver, ouvir, falar e escrever por meio de tecnologias digitais, estudamos, debatemos, supervisionamos, criticamos e apreendemos com nosso cotidiano compartilhado, neste período todo tivemos dois encontros presenciais e foi no Brasil com filhos, parentes e amigos, visitando um parque público que pude entender  que não há nada que substituia a afetação dos encontros de corpo presente, mas a distância e o trabalho por meio destes dispositivos digitais fortaleceu nossa capacidade de fazer presença e acompanhar a vida diária de quem nos interessa.

Neste mês o blog completa um ano de existência de ensaios, rascunhos, algumas publicações com parcerias pontuais, muitos aprendizagens técnicas, conceituais e produções, nem tudo que realizamos conseguiu ser uma publicação, por este motivo o subtítulo do blog passou ser “fragmentos de processos”, pequenos recortes possíveis de processos maiores e desta maneira, por enquanto, será possível trazer para este blog a continuidade do enredo, a permanência de uma rede que se constituiu por meio de correspondências e se mantém aberta às novas conexões.