A conta não fecha


QUANTO É O MÍNIMO

Atualmente, em diferentes países estudam-se formas de implantação de uma renda mínima individual, se tornou insustentável a desigualdade social nesta engrenagem agressiva e segregacionista que chamamos de capitalismo neoliberal, porém o mínimo em dinheiro não reflete ou não deveria refletir o desejo de abundância que todos continuaremos a ter. Que bom que seja assim, pois “não queremos só comida, também queremos diversão e arte” como bem disse a banda, Titãs no final da década de oitenta em terras brasileiras.

É necessário um debate qualificado sobre os critérios e a construção da renda mínima, que ofereça condições de acesso e consumo. E que sejam feitas perguntas o mais breve possível antes que as narrativas tendenciosas sobre o tema tomem toda nossa atenção. 

Neste “blog” cabem as provocações de alguns temas, cabe acolher mobilizações individuais, sensibilizar o leitor sobre a dimensão do nosso tamanho e dos nossos comportamentos em diferentes territórios.

Compreendo que o mínimo é garantir a liberdade criativa e a eficiência dos comportamentos de conexão com a vida.

Então – COMO DE COSTUME – vamos em busca de exemplos que ilustrem nossas conversas por aqui, ao perguntarmos para uma criança como ela quer viver, possivelmente teríamos uma resposta simples: quero viver bem, ou quero viver com ALEGRIA, ou quero viver brincando! Um exemplo simples de que o mínimo é viver em um estado de bem-estar, ocupado daquilo que nos alegra e, bem sabemos, uma criança brincando está integralmente envolvida com seu corpo, seus desafios e aprendizagens, não há preguiça, não há sedentarismo.

Por se tratar de uma criança, respondendo a uma pergunta de maneira tão eficiente e com domínio lógico sobre aquilo que a fortalece, nos faz sorrir e por alguns instantes acessarmos esse estado de ALEGRIA, porque temos a memória de viver desta maneira, já fomos crianças e sabemos “COMO É” e o quanto fomos convencidos do contrário em algum grau, se não estivermos totalmente ressentidos.

Vamos usar este exemplo sempre que tentarmos entender O QUE É e,COMO É, o estado de produção e investigação sobre quem somos, a natureza dos nossos comportamentos e quais escolhas nos fortalecem.

Sabemos o quanto somos capazes de se envolver em algumas atividades de maneira tão interessada quanto as crianças e o quanto é grande nossa vontade de se alegrar,porque somos ávidos por trabalhar e criar saídas para problemas comuns da vida cotidiana e, somos ainda mais ávidos por práticas eficientes e não apenas utilitárias.

Outro bom exemplo para ilustrar a abundância de nossos desejos e a eficiência natural de um CORPO ALEGRE é a prática da DANÇA, uma arte que nos torna habilidosos consigo, com os próprios recursos de criar graça e coreografar comportamentos e retirar-se do enfado das atividades rotineiras. Quanto mais dançamos ampliamos competências de nossa natureza humana, a de se alegrar, pensar, criar e produzir em abundância, diferentes expressões corporais, fazer graça e traquinagens com os gestos e os movimentos físicos. Somos exuberantes, não paramos de produzir diversidade e contraditórios.

QUANTO É ABUNDANTE?

Abundante é uma quantidade muito superior ao mínimo e que não faz desperdício porque tudo se aproveita, e diferentemente da lógica capitalista que precisa gerar a falta,criar objetos e demandas de consumo, vender o produto final, oferecer coisas mastigadas para manter corpos sedentários de produção e distantes do que podem, aqui a conversa é sobre abundância mesmo, aquilo que não acaba.

Comparo estados de abundância com o estado da criança brincando que se alegra com suas próprias perguntas e seu imaginário, comparo também a abundância com o corpo dançando que se entende pensando e criando como ações complementares de infinitas possibilidades.

Também compreendo abundância, como a sabedoria dos permacultores que entendem que após semear, plantar, crescer, colher e comer, precisam se ocupar do reaproveitamento das sobras, trocar com a vizinhança sua produção, suas aprendizagens e histórias sobre o que viveram durante o cultivo.

Faço essas duas ilustrações, a da criança brincando e da pessoa dançando, porque me interessa – como sempre, em todos os “posts” neste “blog” – provocar atenção para os modos – COMO FAZEMOS TUDO E QUALQUER COISA – porque assim podemos entender a natureza dos nossos comportamentos, a permanente transformação e COMO agregar valores, significados e inteligências colaborativas em nossas redes.

Colaborar é uma inteligência! 

Há um dado importante para esta afirmação: durante 2,5 milhões de anos, os humanos se alimentavam coletando plantas e caçavam animais que viviam e procriavam sem qualquer intervenção humana, uma estratégia coletiva de se deslocar em grupo, investigar e multiplicar conhecimento e esforços corporais sem nenhuma chance para o sedentarismo. 

E pelo longo período que este modo de vida esteve neste planeta nos permite supor a eficiência destes comportamentos, supor um alto grau de motivação necessária de permanecer em movimentação e não acumular nada, fazer reservas só daquilo que se consegue carregar, não tratar em cativeiro particular os animais, pessoas e objetos,fechando e abrindo ciclos conectados com estações climáticas na aventura de estarem vivos. 

É preciso tempo em abundância para entender os ciclos da natureza e mais tempo ainda para nos educarmos sobre a finitude das coisas, o que é indispensável aos recomeços, “ter que morrer pra germinar” como bem cantou Gilberto Gil no começo da década de oitenta, também em terras brasileiras. 

Acelerar o tempo como propõe alguns, dizendo que tempo é dinheiro, é perder-se da potência que há em cada uma das vivências e para melhor aproveita-las é preciso desacelerar, são muitos os tempos necessários para criar vida neste planeta e nem todos conseguiremos medir, também não há como medir o tamanho da vida das pessoas, talvez a ALEGRIA possa ser uma boa sugestão. 

Sua conta fecha? Te sobra tempo? Você já dançou hoje?

Categorias:casa, comportamento, redes, TERRITÓRIOS

2 comentários

  1. Gostei muito do texto, nos faz refletir sobre o que estamos vivendo, mas o que me chama atenção, é sua fala sobre o TEMPO! Para o tema, menciono que na bíblia diz: ‘há tempo de nascer e morrer, tempo de guerra e de paz, tempo amar e de deixar de amar”
    Mas como medir o tempo? Lembrei que realmente tudo tem o seu momento. Na música há vários tempos na melodia, é ele que irá dizer, como o compasso musical irá estimular nossa alma, mente, como o corpo irá sentir e como iremos dançar, pois o tempo domina o ritmo seja lento ou rápido e dentro do compasso, há ainda a fusa que é uma virgula, no tempo.
    há outro pensamento sobre os rituais é preciso tempo para viver as cerimonias “o tempo é dinheiro’ do capitalismo transforma essência do homem é como se ele não pertencesse a nada, nem a ele mesmo, autor Byung-Chl Han em seu livro desaparecimento dos rituais “ A humanidade vive o imediatismo, e não percebe que para se entender a existência é preciso tempo e se não há cerimonia as coisas somem”
    Veja que para se compreender de verdade o luto é necessário o velório que é o ritual de despedida. O ritual e o tempo são irmãos, precisamos dessa dupla para pertencer ao um grupo ou comunidade, talvez o que nos falta mesmo é tempo com quem possa nos ensinar a ouvir a voz do vento e dançar com ele, entender os ritos e ler as fases do tempo talvez a conta feche!
    um abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Nide, também gosto do seu texto, gosto mais ainda da importância que você atribuiu as reflexões sobre. Neste blog é de grande valor conversas sobre tempo e sobre o corpo na vida cotidiana, seja bem vinda!

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