Lavar as mãos e a roupa suja!


QUEM LAVA AS MÃOS ? E COMO ?

Nossos comportamentos são cultivados com dedicação diária, com muita atenção, e quando atribuímos sentidos a eles, exatamente como o cultivo de uma horta, primeiro estabelecemos uma relação de vital importância; passamos a nos alimentar dela e dedicamos cada vez mais tempo para aprimora-la, nossas mãos assimilam habilidades  junto com calos e ritmos próprios de fazer, movimentos corporais coreografando músculos, ideias e outras vidas. E quando os comportamentos de alerta e desconfiança ganham maior importância, como nos grandes centros urbanos em que a vida está sob ameaça boa parte do tempo, cultivamos comportamentos de ataque e defesa, repulsa e hostilidade.

Construímos coreografias – movimentação corporal – repetindo ações simples – o tira e põe casaco, o tira e põe sapatos, o tira e põe máscaras (em todos os sentidos), o lava e suja louças, o lava e estende roupas, um imenso faz e desfaz coisas cotidianas que vão desenhando no CORPO um modo de estar nos ambientes -anatomias de adaptação –  o MODO COMO as pessoas estão vivendo. São olhos arregalados de medo, peitos encolhidos de sofrimento, cabeças erguidas de otimismo, pisadas firmes de confiança ou “pisar em ovos” pra não serem percebidas, uma infinidade de comportamentos de composição e adaptação, porque somos assim, CORPOS com uma capacidade interminável de modelar a si próprios para se adaptar as demandas de convivência social.

Sobre esta modelagem farei um outro post.

Agora é importante voltar atenção para a louça !

A louça que está na mesa chegará até a pia porque alguém se ocupará de fazer o deslocamento destes objetos. Pode ser de uma maneira arrastada com todo peso da obrigação, ou com a velocidade necessária para se livrar logo desta atividade, ou com gestos curtos e com “mão quebrada“, ou  com a elegância de quem monta uma instalação artística, ou com a destreza do equilibrista que se diverte entre os equilíbrios improváveis, ou com nenhum cuidado pessoal porque em algum momento alguém chegará para nos salvar da louça.

Se até aqui eu tenha conseguido atrair sua atenção para o COMO cuidamos da louça ou de qualquer outra atividade simples do cotidiano, todas elas mais importantes que a própria louça, é porque ficou clara a ideia de que dançamos em torno dos objetos, mobílias, paredes, obstáculos e pessoas a nossa volta; de que estabelecemos coreografias adaptativas e assim modelamos os CORPOS, mais ou menos alegres, mais ou menos presentes, mais ou menos contrariados e vítimas dos esforços domésticos.

QUEM LAVA A ROUPA SUJA ?

Lavar a roupa suja é uma expressão bem comum entre nós brasileiros quando nos referimos aos diálogos com atrito dentro de nossas casas e nas relações pessoais com alguma convivência e intimidade. E para que serve ? E para quem Serve ?

Serve para limpar o que ficou sujo pelo uso, porque sujar as roupas é inevitável para nós “humanos sapiens“. Elas são utilidades e também são adereços para as nossas coreografias. Usamos e trocamos de roupas COMO preparação para cada próxima atividade, lava-las pode ser justamente a relação de preparo, ou mais uma vez, um acúmulo de tarefas sem sentido algum, apenas obrigatórias, enfadonhas e desnecessárias.

Porém não conseguimos levar a vida pelados, será necessário vestir, usar e prepara-las para usar novamente, escolhendo COMO queremos fazer esta operação que se repete todos os dias, realiza-la tal como fazem os samurais que ritualizam o ato de vestir sempre como se fosse a última vez, ou tal como faz o cirurgião antes de operar, de maneira asséptica e disciplinada, ou como o mergulhador com roupas seguras e desconfortáveis, ou como a bailarina com poucos panos leves, ou ostentando excessos de símbolos e marcas carregadas de status.

Espero ter conquistado sua atenção para a importância do COMO “lavar a roupa suja“, vestir-se de sentidos pessoais, de cuidados com a presença nos encontros, de preparar-se para a natureza dos ambientes, com seus climas, relevos e culturas. Lavar não apenas para se livrar do sujo, indesejado ou contagioso, mas recuperar o gosto pelo cuidado,  pelo capricho, pelo enfeitar-se e sem tanta repulsa de sujar as mãos com a vida que se tem e com a própria sujeira.

Sendo inevitável a “lavação de roupa suja” por ser desejável recomeçar sem a sujeira do dia anterior, temos que reservar tempo para isso e não atribuir para outras pessoas o cuidado que se refere a nossa própria organização. Ressignificar como privilégio, dedicar tempo trabalhando sobre os objetos marcados por nossa vivência. Investigar em nossos próprios hábitos os modos como estamos vivendo, produzindo e queimando energia, o quanto consumimos, acumulamos e criamos objetos e subjetividades na vida cotidiana.

ENTRE AS QUATRO PAREDES

E não são apenas os hábitos cotidianos que modelam nossos CORPOS, e não apenas as práticas e disciplinas organizam nossos COMPORTAMENTOS. Existem diálogos entre as quatro paredes envolvendo no mínimo duas pessoas em uma conversa – e novamente afirmo o que já escrevi anteriormente – como humanos sapiens precisamos contar para outras pessoas “O QUE” e “COMO” estamos vivendo.

É assim que nos desenvolvemos desde criança, usamos da presença das outras pessoas para testar nossos comportamentos, aferir a eficiência deles, o alcance das nossas habilidades, o que provocamos, o que já sabemos e o que ainda precisa de mais ensaios: qual o tom de voz usamos, a qualidade dos gestos, qual coreografia intensifica nossas emoções ou as enfraquece. Nos aperfeiçoamos nos encontros, lavar a roupa suja em casa é privilégio de ensaiar coreografias acompanhados, aumentar nossas habilidades de conviver e colaborar com os ambientes.

O diálogo na intimidade da casa e sobre as coisas simples da vida cotidiana, por exemplo, quem lava louça hoje ou quem acompanha a lição de casa das crianças são ricas oportunidades para entender o que fazemos e como fazemos os acordos de convivência, como exercitamos poder e vulnerabilidade, como praticamos o direito ao contraditório, como favorecemos a liberdade de expressão e como encontramos saídas coletivas para problemas comuns. Temas atuais da vida em sociedade, que tem neste lugar íntimo e privado a construção dos primeiros sentidos, dos primeiros vínculos e valores que sustentam um modo de estar na vida.

Repetidas vezes neste post chamei sua atenção para os MODOS, para os COMOS fazemos desde as coisas simples até as tarefas de maior complexidade. Chamei atenção para a importância de se ver fazendo e atribuindo sentidos aos próprios comportamentos. Acredito que conhecemos melhor a natureza dos nossos comportamentos observando suas funções no processo de desenvolvimento, aumentando complexidades e capacidade de conexão.

Chamei sua atenção para aquilo que nos torna fluentes e habilidosos no manejo da vida cotidiana; olhar para os COMO’s e fazer com as próprias mãos.

Categorias:casa, comportamento, TERRITÓRIOSTags:, , ,

10 comentários

  1. Que lindo texto! Quanta sensibilidade e profundidade!

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  2. Tivemos exatamente essa conversa e me fez prestar mais atenção aos processos da casa e na importância de fazer parte mesmo que não envolva MINHAS roupas sujas… o importante é fazer a engrenagem girar sem sobrecarregar uma delas e acabar por dar problema na máquina rs

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    • Oi Renata,
      penso que será inevitável não levarmos nossas roupas sujas pra dentro da casa que estamos vivendo atualmente, mas talvez seja um esforço adulto ajudar lavar as roupas sujas que já estão de molho a muito tempo, acho que entendi seu atual trabalho cotidiano,

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  3. Para mim o diálogo de “acertos” em casa está se tornando cada dia mais difícil, a falta de paciência reina e os choques são cada vez mais frequentes, e cada vez mais eles trazem alguma mágoa ou exposição de alguma situação e comportamento que incomoda e antes não se falava sobre… mas a atmosfera fica meio pesada

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    • Oi Nayara,
      fiquei acompanhado do seu comentário durante o almoço pois o li antes de ir para o fogão, então durante este período entre preparar e almoçar, pensei sobre os meus choques, riscos e exposição de mágoas antigas que estão expostas com o confinamento. Pensei nos riscos ainda maiores de uma população em situação de vulnerabilidade. Pensei sobre a importância da conversa com outras pessoas em diferentes formas de confinamento e as diferentes alternativas daqui pra frente. Passei a desejar muito a sobrevivência, a minha e a de tantas pessoas que vão contar “ COMO FOI POSSÍVEL! “
      e quem sabe, nunca mais se esqueça dos “acertos” necessários para se viver em rede, em grupo e em pequenos grupos, que não esqueçamos dos “acertos” necessários para deixarmos de produzir pobreza, vulnerabilidades e ignorância!
      Torcendo aqui! que você não só sobreviva, mas que também supere os comportamentos incômodos e depois possa contar pra todo mundo COMO FEZ! porque não tenho dúvida de tal como você tem um planeta inteiro vivendo uma atmosfera pesada!
      Agradeço seu comentário e participação no BLOG.

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  4. Como o corpo move, fragiliza, tensiona, sensibiliza no ambiente protegido e “lá fora”, dia após dia, na quarentena. E como isso tem coreografado e modelado a gente. Nos últimos 2 meses passei por alguns padrões de comportamento e experimento. As vezes doeu e inflamou, outras vezes cansou muito, mas as vezes foi pura fluidez.

    Passo a maior parte do tempo lavando louça, cozinhando, andando e varrendo. É de fato uma coreografia, ou uma orquestra feita de tarefas, engrenagens e pequenos prazeres. Todas com movimento. Tem o ritual do limão, da yoga. O ritual do café. Do almoço. Do cuidado com a cachorra. Das plantas. Da caminhadinha e do mergulho. Rolam altas conversas com a cachorra, minha amiga! Nas primeiras 2 a 3 semanas a louça estava sempre limpa e o chão sempre varrido. O corpo tava pilhado, teso, flexível, reflexivo. Zero inspiração com qualquer ideia de trabalho.

    Com o tempo, uma areinha, um copo sujo… e vai relaxando, roupa acumula… mensagens também… Vai ficando difícil focar no único trabalho que consegui. Acendo um cigarro, assisto e leio notícias por dias seguidos. O corpo sente. Não durmo. O dia fica difícil. Nesse momento, preciso ir pra cidade… A comida acabou. O corpo fecha, não respiro. As únicas tarefas possíveis no dia são as compras e tudo que envolve o cuidado pra não me contagiar. Daí, são dois dias de completo cansaço! Largado no sofá, sem força.

    Então começa um novo ciclo parecido de 2 semanas, até que tenha que sair para as compras de novo. E assim segue a luta. Mas muda uma coisinha aqui, outra ali. Por exemplo, o Yoga virou um experimento com dança. Senti a sutileza do movimento, de olhos fechados. Foi um repertório novo capaz de liberar dores antigas, mesmo que só por um tempinho curto. As dores sempre voltam, já que as dobraduras e desvios que as causam foram se instalando ao longo das décadas e não dão sinais de que irão embora, aos 53. Também não se resolvem as questões da macro política, e a certa culpa de se reconhecer privilegiado e não conseguir atuar no coletivo de forma efetiva neste momento.

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    • Oi PAULO, que alegria encontrar com seu texto aqui, isso concretiza meu desejo de reunir pessoas que fazem arte da vida cotidiana, sofrem de paixão pelas coisas realmente belas, as delicadezas, os caprichos e singularidades. BEM VINDO

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  5. Durante o texto, organizei mentalmente as louças na pia… a ordem de organizá-las, limpar os restos de comida, empilhar, ensaboar, lavar, organizar para secar… O mesmo fiz com as roupas sujas. Separar por cor e tipo, colocar na máquina, enfiar sabão e vinagre, ligar. Bater para desembolar, descer o varal, estender, subir o varal… Tantas ações. Vejo um corpo ágil e muito acostumado com a intimidade desse fazer, momentos geralmente de introspecção e solidão.
    Esses foram meus COMO e minhas reflexões.
    Assim me despeço, até a próxima.

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    • Oi paulamaria, bem vinda nessa conversa aberta, que pretensiosamente deseja reunir pessoas através das cartas – textos sem urgência – carregados do gosto pela escrita em primeira pessoa e pelos versos. Bem vinda e desejada sua chegada, acompanho seu BLOG – http://www.paulamaria.wordpress.com – e me alegra os vínculos possíveis com este manejo da escrita expressiva, tal como sinto q vc faz!
      Até já ,

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  6. Este isolamento tem rasgado véus e revelado verdades muitas vezes dolorosas. Amores que nunca foram sentidos, mas que somente foi possível descobrir o verdadeiro sentimento após vinte quatro horas de convivência. A grande verdade é que somos, não raras vezes, tolerados, por conveniência ou por não sermos capazes de distinguir sentimentos devido ao corre-corre do dia a dia.
    Também está nos fazendo perceber o quão difícil é nos conectarmos. Relembrar passados “esquecidos” pela correria cotidiana é, por vezes, doloroso. É quando descobrimos que a ferida ainda não cicatrizou.
    Tem nos mostrados que a convivência com pessoas é deveras saudável; que o simples caminhar no calçadão é revigorante; que não há nada de mais precioso, além da vida, que nossa liberdade.
    Tenho certeza que muitos sairão transformados dessa tensa e terrível experiência.
    Tensa e terrível porque descobrimos que não somos nada, absolutamente nada neste imenso universo. Que algo microscópico e sem vida é capaz de aniquilar toda humanidade. Que os planos, por mais bem elaborados, podem não sair como esperado ou nem acontecer…
    Eu, pelo menos, já tenho notado minha transformação.

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