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enredando histórias por correspondência mundo a fora!

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Este é o primeiro post deste blog mas durante um ano e algum tempo ele ficou aguardando ser publicado na pasta de rascunhos enquanto outros posts foram publicados e a única parte deste que permanece igual desde o primeiro dia é o título e a foto. Tal como fragmentos de um processo que não se reduz aos resultados, porque pretende compartilhar os percursos, os modos de trabalho, a vida cotidiana para que então contamine por conexões e vínculos que tratem dos afetos como a matéria prima para o trabalho diário em que o tempo não se mede no relógio.

Parti do entendimento que as redes humanas são vivas quando são quentes e úmidas, quando são capazes de sustentar vida com autonomia e tal como nossos corpos são organismos vivos em permanente expansão e contração sobre si e sobre os ambientes que é parte. Então o primeiro passo para este blog era concebe-lo como parte do próprio  processo de concepção entre pessoas em diferentes locais, cidades, países, territórios de trabalho e produção e que se corresponder em confiança investigando a natureza dos nossos próprios comportamentos amplia o alcance do que podemos em nossa vida diária.

Fiz uso das minhas correspondências quase que diárias com amigas que já não estão no Brasil por uma clara redução de oportunidades que em nosso país historicamente persiste e que distrata principalmente as mulheres. Enquanto profissional psicólogo entendo o que é uma profissão praticamente mantida e aperfeiçoada por uma maioria de mulheres diante uma cultura estruturalmente machista e escravagista e o que temos de avanço em diferentes sentidos vem do esforço de mulheres guerreiras de diferentes épocas, tal como estamos vivendo atualmente no Brasil diante um estado que é fruto de um golpe à uma presidenta.

Agora já posso falar da foto!  Veio como uma correspondência entre tantas outras em que minha amiga e colega de profissão Elaine narrava os desafios como mulher, psicóloga, mãe de duas crianças, casada com um médico alemão, morando em Berlim após um longo e rico trabalho de saúde mental nos “médicos sem fronteiras”, conhecendo diferentes realidades pelas quais minha amiga esteve e está exposta, pude entender sua condição de cidadã do mundo, mãe em duas culturas, mulher neste planeta e profissional psicóloga.

Elaine me retratou através de nossas correspondências um olhar para o futuro que se mostrava cada vez mais continuo pelos trajetos desde sua partida para a Africa em 1997, como brasileira, imigrante e sendo parte de uma  família binacional, suas inquietações e desafios não estavam só no território brasileiro, mas nas pontes de conexão cultural, nas fronteiras do pensamento em que se faz necessário criar palavras, gestos e posturas para se viver com saúde em todos os sentidos.

Conversávamos sobre o esforço como profissional psicóloga e mãe não cabendo numa mesma agenda, todas as atividades responsáveis e felizes com a educação dos filhos demandando todo o tempo cotidiano e cada vez mais as tecnologias digitais; imagem, voz, gravações e comunicação ao vivo tornando-se indispensáveis neste percurso já pós moderno mas em que as mulheres ainda são as únicas responsáveis por toda gestão da vida doméstica e educação familiar.

Passamos então por um período de dois anos nos correspondendo quase que diariamente, algumas conversas gravadas, outras não, fotos, textos nossos ou de outras pessoas e sempre acolhendo nossa própria inquietude com o uso destes dispositivos de tecnologia em relação ao trabalho clínico, em saúde mental e aconselhamento psicológico em que o trabalho de escuta está associado a qualidade dos vínculos, à clareza dos acordos e a qualidade dos encontros que abrem fluxo/passagem para afetos e liberdade para expressar.

Durante dois anos praticamos ver, ouvir, falar e escrever por meio de tecnologias digitais, estudamos, debatemos, supervisionamos, criticamos e apreendemos com nosso cotidiano compartilhado, neste período todo tivemos dois encontros presenciais e foi no Brasil com filhos, parentes e amigos, visitando um parque público que pude entender  que não há nada que substituia a afetação dos encontros de corpo presente, mas a distância e o trabalho por meio destes dispositivos digitais fortaleceu nossa capacidade de fazer presença e acompanhar a vida diária de quem nos interessa.

Neste mês o blog completa um ano de existência de ensaios, rascunhos, algumas publicações com parcerias pontuais, muitos aprendizagens técnicas, conceituais e produções, nem tudo que realizamos conseguiu ser uma publicação, por este motivo o subtítulo do blog passou ser “fragmentos de processos”, pequenos recortes possíveis de processos maiores e desta maneira, por enquanto, será possível trazer para este blog a continuidade do enredo, a permanência de uma rede que se constituiu por meio de correspondências e se mantém aberta às novas conexões.

2 comentários Adicione o seu

  1. Margarete Soares disse:

    Ainda nem li, mas já foi um prazer enorme receber o aviso de um novo post! ; )

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    Curtido por 1 pessoa

    1. glaucosoto disse:

      Olá Margarete,

      Quanto mais o tempo passa tenho certo que vale a pena cultivar nas redes, após um ano que iniciei este blog com diferentes parcerias percebo o quanto escreve-lo me fez bem, me organizou pensamentos, conceitos e atualizou minha prática cotidiana.

      Entendo sua alegria como mais uma motivação para continuar investindo em um modo de fazer pesquisa, um modo de publicar conhecimento, informação etc.

      Aproveito sua mensagem para convida-la para uma entrevista e publica-la aqui no blog, gostaria de falar sobre tudo que te desafia onde você está vivendo.

      um forte abraço

      Curtir

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